ECOS DO PASSADO

Muito do que somos ou passamos nesta vida. São reflexos de experiências anteriores que trazemos em nosso inconsciente, envoltos em um véu de esquecimento cuja função é facilitar o convívio fraterno e a evolução.

- Maria Madalena Naufal -
Existe um provérbio popular que diz: "Águas passadas não movem moinhos". De fato não movem, mas nós, espíritos ainda em evolução, estamos muito vinculados ao nosso passado e, muitas vezes, precisamos adentrá-lo para entender o presente. Temos apenas uma vida, mas muitas encarnações e nossa personalidade atual está vinculada às anteriores.

Quem estuda o Espiritismo seriamente pode compreender a ligação que existe entre os dramas vividos atualmente pelas pessoas, pelas famílias, pela sociedade e pelas diversas nações que povoam o nosso planeta. Sabem que se originam de um passado distante ou até mesmo recente, de uma encarnação anterior ou da atual. A chamada Lei de Causa e Efeito, Ação e Reação ou do Retorno é universal e justa, pois emana de Deus.

Nas obras espíritas, encontramos uma infinidade de casos interessantíssimos sobre o assunto, mas, na impossibilidade de abarcarmos todos, vamos nos limitar a apenas alguns deles.

Tiradentes e sua expiação

Muitas vezes, ocorrem fatos que não entendemos, mas queremos compreender. Diante disso, buscamos uma explicação que nos satisfaça, porém, a análise histórica nem sempre resolve e precisamos ir mais além, recorrendo forçosamente à espiritualidade. É como um mapa do tesouro cortado ao meio. Cada parte sozinha não leva até ele, mas, ao juntá-las, a tarefa de encontrá-lo fica facilitada.

Indagava sempre comigo que espírito animava Tiradentes, o líder da famosa Inconfidência Mineira. Por que apenas ele permaneceu fiel até o fim ao ideal que pregava? Por que só ele foi executado? Nenhum historiador, em sã consciência, pode negar o heroísmo deste valoroso brasileiro, mas nenhum pode explicar também, à luz dos documentos históricos, o que realmente aconteceu em um outro plano da vida.

Pois bem, eis que encontrei a explicação que procurava há tempos no livro Brasil: Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, ditado pelo espírito Humberto de Campos e psicografado por Chico Xavier. "O mártir da inconfidência, após ter examinado amarguradamente a defecção dos companheiros, revestiu-se de supremo heroísmo. Seu coração sentiu uma alegria sincera pela expiação cruel reservada somente a ele, já que seus irmãos de ideal poderiam continuar possuindo o sagrado tesouro da vida. As falanges de Ismael cercaram sua alma leal e forte, inundando-a de santificadas consolações", explica o livro.

A obra conta ainda que Tiradentes entregou seu espírito a Deus, nos suplícios da forca, em 21 de abril de 1792 e um arrepio de ansiedade angustiosa percorreu a multidão no instante em que o corpo dele balançou nas traves do campo de Lampadosa. No entanto, naquele momento, Ismael recebeu a alma edificada do mártir em seus braços carinhosos e fraternos, exclamando: "Irmão querido, resgatas hoje os delitos cruéis levados a efeito por ti quando te ocupavas do nefasto mister de inquisidor nos tempos passados, resgataste o pretérito obscuro e doloroso com as lágrimas de teu sacrifício em favor da pátria do evangelho de Jesus. Passarás a ser um símbolo para a posteridade com o teu heroísmo resignado nos sofrimentos purificadores. Novo gênio que surges, espargirás novas bênçãos sobre a terra do cruzeiro em todos os séculos de seu futuro. Regozija-te no Senhor pelo desfecho dos teus sonhos de liberdade, pois cada um será justiçado de acordo com suas obras e se o Brasil se aproxima de sua maioridade como nação, ao influxo do amor divino, será o próprio Portugal que virá trazer até ele todos os elementos de sua emancipação política, sem o êxito incerto das revoluções feitas à custa do sangue fraterno para multiplicar os órfãos e as viúvas na face da Terra".

Por fim, o livro explica que "um sulco luminoso se desenhou nos espaços à passagem das gloriosas entidades que vieram acompanhar o espírito iluminado do mártir, que não chegou a contemplar o hediondo espetáculo do esquartejamento". Uma alegria indescritível deve ter se apossado do espírito daquele que, na Terra, recebeu a alcunha de Tiradentes ao se reconhecer no plano espiritual como alguém que, à custa de ingentes sacrifícios e amor extremado, resgatou suas culpas do passado e, repleto de luzes, pode continuar sua caminhada rumo ao infinito e à perfeição, destino de todos nós.

Um caso de animismo

Em “Nos Domínios da Mediunidade”, livro também psicografado por Chico Xavier, André Luiz traz o caso de uma senhora que procurou um centro espírita para receber ajuda. Durante a sessão, ela caiu em pranto convulsivo, dizendo repetidamente: "Quem me socorre"? E comprimindo o peito com as mãos, acrescentava em tom comovedor: "Covarde! Por que apunhalar assim uma indefesa mulher? Serei totalmente culpada? Meu sangue condenará seu nome infeliz".

O doutrinador Raul a consolava carinhosamente, dizendo-lhe que o perdão é o remédio que recompõe a alma doente. "Não admita que o desespero lhe subjugue as energias! Guardar ofensas é conservar a sombra. Esqueçamos o mal para que a luz do bem nos felicite o caminho", disse. Porém, a mulher retrucou: "Nunca! O senhor sabe o que é uma lâmina enterrada em sua carne? Sabe o que é a calamidade de um homem que nos suga a existência para nos arremessar à miséria, comprazendo-se, depois disso, em nos derramar o próprio sangue"?

Enquanto a mulher continuava a reclamar e Raul a doutriná-la, André Luiz e Hilário, seu companheiro de estudos, observaram que não havia nenhum espírito feminino ligado a ela, mas apenas um homem desencarnado, não muito longe, que a fitava desalentado, porém sem qualquer ligação magnética com ela. Foi então que o instrutor Aulus lhes explicou: "Estamos diante do passado de nossa companheira. A mágoa e o azedume, tanto quanto a personalidade supostamente exótica de que dá testemunho, procedem dela mesma. Ante a aproximação de antigo desafeto, que ainda a persegue de nosso plano, revive a experiência dolorosa que lhe ocorreu em uma cidade do Velho Mundo no século passado e, em seguida, padece de insopitável melancolia. Ela recomeçou a luta na carne na presente encarnação, possuída de novas esperanças, mas tão logo experimentou a visitação espiritual do antigo verdugo, que a ela se enlaça através de vigorosos laços de amor e ódio, perturba-se sua vida mental, tão necessitada da mais ampla reeducação. É um caso no qual se faz possível a colheita de valiosos ensinamentos".

Esta era uma situação de autêntico animismo e o orientador explicou que ela deveria ser tratada com a mesma atenção dada aos sofredores que se comunicam. Ela renasceu pela carne, mas não se renovou em espírito. Após conclamá-la ao esquecimento do passado, Raul convidou a mulher ao benefício da prece e, depois, pediu que perdoasse os inimigos, como forma de reconquistar a paz. A enferma voltou ao normal, mas seu reajustamento se daria pouco a pouco. Reequilibrada, poderia desempenhar valiosas tarefas mediúnicas no futuro.

Resgates e provações coletivas

No século XVI, aconteceram guerras religiosas entre católicos e protestantes, com trágicas conseqüências tanto no campo material como no espiritual. Em 1572, Catarina de Médicis, regente da França, ordenou o massacre contra os huguenotes na famosa Noite de São Bartolomeu, quando milhares de protestantes foram sacrificados. Uma das articuladoras desse movimento foi a Duquesa de Nemours e tanto ela como seus familiares se comprometeram gravemente nos dias precedentes e no decorrer dos acontecimentos da fatídica noite.

Séculos depois, a duquesa reencarnou no Brasil, com o nome de Esmeralda Bittencourt, juntamente com membros de sua família e todos passaram por um vigoroso látego reeducativo. Muitos deles, fortalecidos pelo conhecimento espírita, conseguiram se libertar das duras penas que se impuseram, espalhando bondade e luz ao mesmo tempo, enriquecendo suas vidas e deixando um imenso legado de amor. Os exemplos que deixaram são severos e preciosos convites à prática do bem, ao perdão constante, um libelo contra todos os preconceitos, sectarismos e prepotências. O livro Ecos de São Bartolomeu, de Luiz Antônio Milleco e Isabel Bittencourt de Souza, conta em detalhes a ascensão espiritual dessa família.

Ao estudarmos a história universal com atenção, podemos perceber com clareza que os resgates também atingem coletividades e nações inteiras. Na obra A Caminho da Luz, psicografada por Chico Xavier, Emmanuel conta que a França, por exemplo, passou por dolorosas provas depois de seus excessos na Revolução Francesa e nas campanhas napoleônicas.

Após as revoluções de 1830 e 1848, mediante as quais se efetuaram penosos resgates por parte dos indivíduos e das coletividades, surgiu a guerra franco-prussiana de 1870. A grande nação latina, por causas somente conhecidas pelo plano espiritual, foi esmagada e vencida pela orgulhosa Alemanha de Bismarck, que, por sua vez, embriagada e cega no triunfo, faria jus às dores amargas de 1914-1918, na 1a Guerra Mundial. Paris, que assistiu as dores dos condenados ao terror com certa indiferença, comparecendo aos espetáculos tenebrosos do cadafalso e aplaudindo os opressores, sofreu com a fome e a miséria antes de cair em poder dos impiedosos inimigos, em janeiro de 1871. As imposições políticas do imperador Guilherme em Versailles e as amarguras coletivas dos franceses nos dias da derrota significaram o resgate dos desvios da grande nação latina.

Recordar existências passadas

O leitor pode perguntar agora: mas por que, com poucas exceções, não nos recordamos de nossas existências passadas? A resposta a esta questão foi dada por Allan Kardec em O Livro dos Espíritos, quando diz: "Lembrarmos de nossas individualidades anteriores teria gravíssimos inconvenientes. Em certos casos, humilhar-nos-ia sobremaneira e, em outros, exaltar-nos-ia o orgulho, apeando-nos do livre-arbítrio. Para melhorarmos, Deus nos dá exatamente o que é necessário - a voz da consciência e os pendores instintivos - e nos priva do que nos prejudicaria. Acrescentemos que se recordássemos de nossos precedentes atos pessoais, igualmente nos lembraríamos dos de outros homens, resultando, talvez, nos mais desastrosos efeitos para as relações sociais. Nem sempre podendo nos honrar de nosso passado, melhor é que um véu seja lançado sobre ele".

Muitos perguntam se a Terapia de Vidas Passadas (TVP) deve ser empregada. Entendo que sim, desde que seja feita por profissionais competentes e com o propósito de aliviar dores do corpo e da alma. Jamais deve ser utilizada por vã curiosidade ou outros motivos fúteis, pois há o risco de se despertar traumas ou conflitos que deveriam estar superados, trazendo novos problemas ou agravando os já existentes. Hugo Calvoso nos esclarece que muitas pessoas, movidas pela vaidade, têm curiosidade de saber se, no passado, foram um grande sábio, artista, nobre ou vulto importante da história, porém, devem ter cuidado, pois a decepção pode ser muito grande. "Certa feita, em um artigo sobre Chico Xavier, li que uma senhora, obviamente crédula, dizia a ele que havia sido uma rainha e que fora sacrificada na arena romana, devorada pelos leões, no tempo do imperador Júlio César. Então, perguntou a Chico o que ele tinha sido e o médium mineiro, com seu sorriso luminoso e dando grande lição de humildade, disse que não sabia ao certo, provavelmente uma pulguinha desse leão", contou.

Para finalizar, fico com as palavras de um companheiro de doutrina, Sílvio Xavier: "Nosso passado, na realidade, não desapareceu, prosseguindo conosco em nossas tendências, preferências e aptidões. Compreendamos, no entanto, que o esquecimento de nomes e ocorrências é uma concessão, uma bênção, procurando agir de tal sorte que, no futuro, possamos nos lembrar do que fazemos na atualidade com satisfação e tranqüilidade".

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