CINCO BADALADAS

- Por Frank -


O Brazuca foi para fora; foi buscar longe, o que não encontrou por aqui.

Queria uma vida melhor pra si e para seus familiares. Queria um futuro, uma chance, e embarcou no sonho do outro que fora para além da fronteira antes.
Foi o outro que disse que valia a pena imigrar e tentar ganhar a vida longe, além do mar.

Ele não era o único nem seria o ultimo.

Como tantos outros brazucas, trabalhava noite e dia, dia e noite, num país desconhecido, tentava falar aquela língua complicada, mas, desde cedo aprendera que o trabalho árduo era o idioma universal e não precisava ser traduzido, afinal, seja na América ou no Japão, todos os empregadores adoram trabalhar com brazucas, e dizem: "eles são leais e não reclamam".

Eles não reclamam, pois um bom brazuca valoriza o que tem. Sabe que, para chegar até ali, para estar em frente à pilha de louças para lavar ou servindo mesa, teve que atravessar um oceano a nado, enfrentou coiotes, driblou os oficiais da Imigração, e a cada dia marcava um gol na sua conta bancária, disputando a taça da casa própria, do negócio que abriria quando voltasse pro Brasil, da casa de barro dos pais, que se transformaria em castelo de concreto.

Cada prato era um tijolo; cada mesa era um pedaço do sonho.

Ele não foi o ultimo a sair do país em busca de uma chance, mas virou o único a ser deportado de volta para a casa das estrelas, ao som de cinco badaladas no templo dos seres ignorantes, que ainda não compreenderam a verdade: quando se mata um, mata-se todo mundo.


São Paulo, 26 de julho de 2005.

P.S.: Texto dedicado a Jean Charles de Menezes, brazuca que foi deportado para as estrelas na semana passada. O rapaz foi envolvido numa trapalhada da polícia de Londres, que o perseguiu e o matou, achando, equivocadamente, que ele era um terrorista.

Nota de Wagner Borges: Frank é o pseudônimo do nosso amigo Francisco, participante do grupo de estudos do IPPB e da lista Voadores. Depois de vários anos morando em Londres, ele voltou a residir em São Paulo, em fevereiro de 2005. Ele escreve textos muito inspirados e nos autorizou a postagem desses escritos. Há diversos textos dele postados em sua coluna da revista on line de nosso site e em nossa seção de textos periódicos, em meio aos diversos textos já enviados anteriormente. www.ippb.org.br

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