MEU NOME É HOOLIGAN!

- Por Frank -

Há uma alegria que transborda pela vida quando fazemos parte de uma torcida.
A energia do grupo, o bradar coletivo, a massa em uma só cor, um só canto avançando em bando, rumo ao estádio, que sacode como se fosse um terremoto, perante o momento do jogo. E, nesse instante, abraçamos uns aos outros e gritamos: é gol!
Mas a melhor parte é quando saímos do estádio e dançamos, e bebemos em celebração. A união é tamanha que acredito não existir no mundo maior satisfação do que essa comemoração com os nossos amigos.
Nesse clima tão fraterno, não sei em que momento, algo mudou o que havia por dentro de mim. A alegria virou fúria e o amor à nossa camisa transformou-se em ódio pela camisa do outro.
Quando meus amigos e eu vimos a outra torcida se aproximando e nos xingando, e incitando a briga, só me lembro que algo mais forte que a minha vontade tomou de conta de mim e, quando vi, eu já estava na porta do bar, com um pedaço de madeira na mão...
Fácil culpar o diabo. No entanto, acho que, na verdade, sentimos algo ancestral e muito bom, uma espécie de lembrança de algo que nunca vivemos por aqui e que já estava dentro de cada um de nós. Não posso falar sobre o que sentiram os outros, mas, enquanto brigávamos, enxergávamos uma satisfação coletiva tão intensa em nossos rostos. E, à medida que o sangue começou a correr pelo nariz do adversário, mais selvagem ficamos e avançamos para o golpe final.
Enquanto pisávamos o inimigo caído, olhávamos uns aos outros, e nos reconhecíamos: éramos todos irmãos de camisa, e amigos da alma.
A polícia tentou nos intimidar, mas já era tarde demais. Nada no mundo conseguiria parar o nosso grupo, que, àquela altura, já era mais que uma torcida: éramos guerreiros tribais lutando por nossa terra, por nosso direito de declarar guerra ao invasor, ou seja, ao outro torcedor que invadira as nossas fronteiras.
Quando acordei essa manhã, ainda com a sensação da luta em meus punhos e em meus lábios, vesti minha camisa, coloquei a minha gravata, arrumei a minha pasta e fui para o meu escritório na Avenida Paulista.
A semana de trabalho começou, mas, no próximo jogo, a jornada continua...

"Eu sou da Galera Jovem,
E não tenho medo de ninguém!
Eu sou da Galera Jovem,
Que mata um, que mata cem!"

São Paulo, 23 de fevereiro de 2010.

- Nota de Wagner Borges: Frank é o pseudônimo do nosso amigo Francisco de Oliveira, participante do grupo de estudos do IPPB e da lista Voadores. Depois de vários anos morando em Londres, ele voltou a residir em São Paulo, em fevereiro de 2005.
Ele escreve textos muito inspirados e nos autorizou a postagem desses escritos.
Há diversos textos dele postados em sua coluna da revista online de nosso site e em nossa seção de textos periódicos, em meio aos diversos textos já enviados anteriormente. www.ippb.org.br – Outros textos podem ser acessados diretamente em seu blog na Internet: http://cronicasdofrank.blogspot.com

Obs.: O Frank escreveu essas linhas por causa de mais uma morte (no último domingo), causada por brigas de torcedores em São Paulo. Dessa vez, os torcedores de uma organizada do Palmeiras se engalfinharam com os torcedores de uma organizada do São Paulo, nas imediações do estádio do Pacaembu. E o resultado foi aquela violência de sempre...
Como o Frank morou vários anos em Londres, ele já havia visto a violência dos hooligans ingleses nas terras da Rainha. Então, escreveu esse texto, que explicita brilhantemente o que se passa no coração desse pessoal que vai ao estádio, não para ver um jogo e torcer pelo seu time de coração, mas para exacerbar sua violência e manchar a vida de sangue.
Para melhorar a compreensão dos leitores sobre essa questão, estou postando, logo abaixo, um artigo sobre os hooligans, postado na Wikipédia.

(Hooliganismo refere-se a um comportamento destrutivo e desregrado.)

Hooligans são grupos de torcedores de eventos esportivos que existem na Europa, mais precisamente na Inglaterra, Rússia, Polônia, Alemanha e Croácia, e que sentem prazer em brigar, usando o futebol como o evento alvo para isso.
Misturam a paixão pelo clube com a vontade de fazer vandalismo, na maioria das vezes, alcoolizados. Alguns grupos hooligans, além da paixão pelo clube, defendem ideologias políticas. Alguns fatos ilustram o perigo que essas pessoas levam aos estádios.
Um exemplo disso foi a final da Liga dos Campeões, entre o Liverpool, da Inglaterra, e a Juventus, da Itália, em 1995. Nesse episódio morreram mais de trinta pessoas.
A repressão é muito forte a grupos hooligans, mas alguns fatos ainda ocorrem, como na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, em que ingleses e alemães promoveram quebra-quebra.
O hooliganismo surgiu tradicionalmente na Inglaterra, na década de 1960, mas ficou mais evidente na década de 1970. Durante alguns jogos, a violência em grande escala entre as torcidas passou a ser visivelmente notada – e televisionada. Hoje em dia, os hooligans são até mesmo proibidos de entrar em alguns países da Europa.
Confusões premeditadas e brigas entre torcidas organizadas são características, também, do futebol brasileiro.
Essas mesmas torcidas praticam numerosos atos de vandalismo, tendo como principal alvo a torcida rival. E, apesar dos números assustadores, esses casos são muito mais frequentes quando os jogos acontecem entre equipes da mesma cidade, seja em partidas nas capitais estaduais, como Flamengo X Vasco, no Rio de Janeiro.
Dentre as principais causas de brigas, estão, principalmente, a exacerbação das rivalidades entre as camadas menos favorecidas (formação de gangues nos bairros e aglomerados), com roupagem futebolística, e a cultura do medo entre essas mesmas camadas, que leva a uma postura intimidadora.
Um caso mais recente, onde houve uma vítima fatal, foi no jogo entre Corinthians e Vasco da Gama, em jogo válido pela Copa do Brasil de 2009, onde houve um ônibus queimado e um corintiano morto por espancamento.
Mas, no Brasil, o principal exemplo é quando se encontram a torcida da Mancha Verde (Palmeiras) e a Gaviões da Fiel (Corinthians). O clássico sempre chama uma atenção a mais e há vários casos de mortos em regiões mais distantes. Ultimamente, o futsal tem sido o maior alvo desses encontros, já que a polícia não dá as devidas atenções para o encontro dessas torcidas nesse esporte.

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