CARTA PARA UMA AMIGA

Quando nos deparamos com a realidade da morte, costumamos filosofar, tirar do fundo do baú mensagens, preces e belos textos que nos tragam conforto e promovam uma dose de paz para aqueles que amamos. É de praxe se exaltar as qualidades e virtudes da pessoa que nos deixou, fato que sempre cai no lugar comum.

Eu hoje quero escrever uma carta, mesmo correndo o risco de cair no lugar comum. Uma carta de agradecimento, aliás, coisa que em algumas oportunidades pude fazer olho no olho.
Uma carta para uma mulher por quem sou eternamente grata aos Deuses, por ter me permitido desfrutar da sua convivência.

Uma carta para uma mulher guerreira, que nascida no começo do século, nos deu mostras de ter resistido bem a todos os seus contratempos e desventuras. Sempre se revelou alerta, ágil, lúcida e interessada no mundo em que vivia. Absolutamente presente. Presente nas coisas práticas e nas coisas da alma.

Seu mundo era a natureza, cuja ligação era de dedicação constante, suas mãos faziam das mais simples flores um ramalhete de luz e beleza. Seu jardim era seu espaço sagrado.

Aprendi a amar, admirar e respeitar essa mulher a cada dia, por 30 anos. A sua simplicidade e humildade me conquistaram e muitas, muitas vezes senti orgulho de estar ao seu lado, ouvindo suas narrativas e velhas histórias de vida.

Cresci em um lar no qual o amor era algo tão natural como preparar um bolo. Isso foi fundamental para mim. Aprendi que o amor não significa apenas frases melosas e abracinhos. Na minha casa havia também muito choro quando sofríamos, raiva e frustrações, mas sempre aprendemos que tudo isso faz parte do caminho do amor. Ao mesmo tempo havia paz, alegria e muita afetividade. Graças a isso nunca criei expectativas irreais a respeito das pessoas. Meus pais, para mim foram modelos do que a vida é: alegria, êxtase, mas também solidão, dor e sofrimentos. O que devemos aprender é juntar todos estes aspectos, e aí será possível lidar bem com a vida e com toda a sua complexidade. Exatamente por isso, essa mulher me cativou e nos tornamos amigas. Diante da sua trajetória de vida, meu coração se enternece, e mais uma vez agradeço aos Deuses por conceber a graça da minha filha ter se formado como Ser com o exemplo dessa mulher.

E então a chamada “Morte” nos chega. Ela é sempre muito democrática, vem com a desculpa de que era o momento oportuno e que a liberdade da alma necessita deste aval.

E assim, a minha amiga partiu para a “Cidade do Verão”. A liberdade da sua alma foi mais forte do que os apelos do corpo e das tecnologias científicas da Medicina moderna. Mas o seu perfil ficou delineado nas nossas almas e nos nossos corações.

Até um dia, D. Eunice, minha amiga, minha sogra, minha “mãe”.

Que Hécate lhe receba sob sua luz!


- Graça Azevedo / Senhora Telucama - 17 de junho de 2000.
(Suma Sacerdotisa do Templo Casa Telucama)

"O universo é meu caminho; o amor, a minha lei; a paz, o meu abrigo. A experiência, a minha escola; a dificuldade, o meu estímulo; o obstáculo, a minha lição; a Sabedoria, meu objetivo; a compreensão, minha benção; o equilíbrio, minha atitude; a perfeição, minha meta; a plenitude, meu destino."

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