O ANJO DE QUATRO PATAS

- Por Frank -


Quando a idade bateu em sua porta, trouxe junto a tristeza e o abandono.

Visitas, somente as testemunhas de Jeová aos domingos; o telefone só tocava por tele-marketing. Estar sozinho não é fácil em nenhuma fase da vida, mas na velhice era mortal. Ele precisava de companhia, mas os parentes estavam sempre ocupados para lembrar que ele existia.
Pouco a pouco, sentia a vontade de viver se esvaindo. Acreditara que não sentiria alegria nunca mais, até o dia em que um anjo de quatro patas surgiu em sua vida. Faminto, sujo, sarnento, ele tinha a perna ferida de tanto “viralatar" por aí, e olhos carentes que chamaram a sua atenção e a sua vontade de ajudar.

Dizem que o amor de verdade nasce da vontade incondicional de se dedicar sem

esperar nada em troca, e foi assim que o amor entre ele e o anjo nasceu. O cachorro precisava de cuidados, e ele queria cuidar.

Foi só uma questão de tempo para que a casa velha desse lugar à jovialidade do querer continuar... O anjo de asas caídas agora pulava que nem criança, e o seu rabo, que antes estava perdido entre as pernas, voltou a querer tocar o céu.

O velho já não sentia mais as dores no peito; o cansaço, que antes era diário, foi virando fim de mês e indo cada vez mais para longe. O anjo de quatro patas havia lhe devolvido a vida, e tudo o que ele tinha lhe oferecido foi um pouco de cuidado e um prato de comida.

Em pouco tempo, o velho rejuvenesceu e o cachorro trocou a rua pela amizade do homem e, muito embora seus vizinhos lhe criticassem, dizendo que não era certo tratar um cachorro como se fosse gente, o velho enxergava o cão como o seu melhor amigo, um companheiro que Deus havia lhe enviado, para resgatá-lo do esquecimento humano.



São Paulo, 15 de dezembro de 2005.

Nota de Wagner Borges: Frank é o pseudônimo do nosso amigo Francisco, participante do grupo de estudos do IPPB e da lista Voadores. Depois de vários anos morando em Londres, ele voltou a residir em São Paulo, em fevereiro de 2005. Ele escreve textos muito inspirados e nos autorizou a postagem desses escritos. Há diversos textos dele postados em sua coluna da revista on line de nosso site e em nossa seção de textos periódicos, em meio aos diversos textos já enviados anteriormente. www.ippb.org.br

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