O MOLEQUE E AS PIRÂMIDES

Por um longo tempo, enquanto trabalhava para juntar grana para ir ao Egito, fiquei imaginando o que sentiria, mas principalmente o que diria ao ficar cara-a-cara com as pirâmides do Egito.

Como boa parte de vocês, cresci com a imagem das pirâmides estampada em revistas, desenhos e minha imaginação. O fascínio virou objeto de estudo, à medida que comecei a estudar os conhecimentos dos antigos povos e a tal espiritualidade. E para esse cigano nordestino, que volta e meia torra todas as suas economias em viagens, as terras do Egito eram um itinerário obrigatório.
Em Londres, enquanto lavava pratos para pagar a viagem, eu ia imaginando o que diria ao ver essa fantástica obra faraônica, à minha frente.

A primeira frase para mim diante de um grande momento é muito importante . É como uma música que marca uma cena de sua vida. Diante de momentos em que estou realizando um sonho, a primeira coisa que me vem à mente são as primeiras palavras, são inesquecíveis. São lembranças que carregarei comigo o resto da vida, ao me recordar do local.

Ainda lembro o que disse ao avistar pela primeira vez a cidade de Matchu Pitchu no Peru. Havia caminhado quatro dias pelas montanhas e agora tinha à minha frente, o nascer do sol atrás das montanhas e os primeiros raios tocando as paredes da cidade. Indescritível momento.

Portanto, tratei de ficar sozinho em silêncio e sentir bem aqueles segundos de trevas e luz se misturando para um novo dia.

"O Sol!
Sol que banha o mundo com o seu calor e ilumina o dia com a sua luz.
Obrigado por oferecer para todos mais um dia de existência nesse planeta.
Ó Montanha Sabia!
Montanha que esconde o sabedoria dos antigos.
Obrigado pela sua beleza e energia que fazem desse lugar destino para tantos viajantes."

E assim, lavando pratos e juntando cada trocado, embarquei nessa viagem e uma semana depois, em frente às Pirâmides, estava pronto para experimentar outro momento especial.

Mas jamais imaginei que minhas Primeiras palavras seriam:

- Sai da frente, moleque!

Um moleque egípcio de 9 anos de idade tentava vender uma coleção de pirâmides. Eu já havia comprado postais, papiros, papéis higiênicos com as imagens da Esfinge, e toda série de parafernália para turistas que os egípcios tentam nos empurrar goela abaixo. Eu só queria o meu momento de viajante em frente às Pirâmides.

O crepúsculo começava seu show de luzes. O sol ia pouco a pouco se escondendo atrás das pirâmides e eu não conseguia me livrar do moleque.

- 10 pounds, moço!

- Eu não quero Pirâmides. Eu não quero mais dizer que eu não quero. Shocran! Thank You! Gratsie! Merci! Obrigado!

- O senhor tá nervoso?

- Não.

- Bem- vindo ao Egito!

E eu fiquei em frente ao moleque, que continuou impedindo o meu momento.

- Olha, tá cheio de turistas ali. Vai lá, vai!

- Qual é o seu nome? Eu me chamo Ali.

- Olha, vai vender para outro. Eu não quero.

Olhei para a minha esposa que só ria em silêncio. Ela sabia da minha neurose, mas parecia estar se divertindo com a situação.

Tentei ignorar o moleque, mas ele continuava lá.

Olhei para as Pirâmides, fechei os olhos, fingi estar rezando, mas ele continuava lá.

- Ele tá rezando, madame?

- Sim. Para ele é um momento bem especial.

- Vocês são cristãos?

- Não.

– Muçulmanos vocês não são. Então para quem ele está rezando?

O moleque já estava dando nos nervos, mas eu abri os olhos e tentei explicar para ele que apesar de não sermos cristãos ou muçulmanos, nós também rezávamos para o mesmo Deus.

- Ah, então vocês são judeus! Mas eu nunca vi um judeu de pele escura. Aquela conversa ia durar para sempre e dentro de mais alguns minutos perderia o meu momento perfeito de sentir o crepúsculo em frente às Pirâmides.

Porém, enquanto pensava nisso, me dei conta do ridículo que era dar mais importância às Pirâmides que ao garoto. Me dei conta de que o garoto estava ali usando todo o seu inglês para se comunicar com a gente. Saber mais sobre o nosso mundo.

Inglês esse que ele deve ter aprendido nas ruas com os primos e colegas e que ele usa para ajudar a vender suas pirâmides para os turistas, em troca de uns trocadinhos para ajudar a família (ou não).

Então deixei as Pirâmides de lado. Elas continuarão no mesmo lugar que sempre estiveram por milênios. E finalmente dei atenção ao moleque.

Entendendo que os meus momentos especiais no Egito seriam algo a mais que as Pirâmides e tumbas dos Faraós.

Seriam com as pessoas que encontraríamos.

E o menino arrematou:

- O senhor é do Brasil? Eu sei o nome de todos os jogadores : Rivaldo, Ronaldinho, Romário. Por que o Romário não jogou, senhor?

- Frank -
Egito, 2002.

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