VIA SORRISO

- Por Frank -

“Ele não está aqui!”, repetia Auri, enquanto eu segurava o mapa da Via Crucis, tentando traçar na moderna Jerusalém os passos de Jesus em direção à Cruz.

“Não dá para você fingir que estamos realmente diante do lugar da Paixão de Cristo?” - sugeri, tentando convencer minha parceira de vida e de viagem que tinha valido a pena ir até ali; afinal, mesmo que estivéssemos caminhando por lugares que ninguém conseguira provar serem os verdadeiros lugares por onde Jesus passara, estávamos em Jerusalém, e em qualquer lugar entre aquele prédio e a lojinha de souvenir ocorreu algo significativo, quer seja no Velho ou no Novo Testamento.

Mesmo que houvesse dúvidas sobre a autenticidade da história de Jesus, os muçulmanos juram que Maomé passara por lá, sem contar os Judeus que afirmam que além daquele muro, o Rei Davi e Salomão caminharam de mãos dadas; mas Auri não conseguia ver nada ali, além das capelas que marcavam cada passo do calvário do Nazareno.
“Se eles criaram esse lugar para os peregrinos, deveriam ter criado a Via Sorriso”, sugeriu minha esposa. “Assim teríamos um mapa mostrando os possíveis lugares onde Jesus brincou com as crianças, ou a esquina onde ele falava de amor ou do quanto e como todos podiam fazer o que ele fazia; mas o que vejo são os possíveis lugares onde ele foi pouco a pouco sendo morto. Desculpe, mas a vida de Jesus, para mim, é mais importante que sua morte.”

“Auri, mas a Paixão de Cristo é tão importante quanto sua vida!”

“Quem disse isso? A Biblia ou o Mel Gibson?”, retrucou ela.

“Eu desisto!”

“Não! Não desista! Continue procurando, eu só estou lhe dizendo que, para mim, Jesus não está aqui”, disse ela, por fim.

E eu continuei procurando e seguindo meu mapa, meio calado e meio contrariado, por ela não estar tão entusiasmada quanto eu por estar ali; porém, a cada passo seguido e a cada capela que entrava, não pude negar que ela estava certa. Tudo era muito legal e bonito, mas realmente não havia qualquer sinal de Jesus por ali, nem mesmo no Santo Sepulcro consegui perceber qualquer seqüela da sua paixão pela humanidade ou do seu amor pela vida.

No fim da tarde, subimos o Monte das Oliveiras e eu continuei com esperanças de sentir algo em relação a Cristo. Era de tardezinha, e do topo da montanha podíamos ver o sol se pondo atrás do muro da cidade velha de Jerusalém.

Auri observava o sol se pondo, enquanto eu tentava localizar no mapa o lugar certo, onde Jesus ensinou o Pai Nosso para seus discípulos, quando minha esposa finalmente sorriu, pegou na minha mão e falou:

“Agora sim, eu sinto Jesus!”

“Eu também - respondi. Desde que subi o monte comecei a sentir algo diferente.”

“Frank, o Monte das Oliveiras é muito bonito, mas foi o sol se pondo sob a cidade que fez com que eu me lembrasse de Jesus”, ela disse, enquanto seus olhos refletiam o dourado que banhava a cidade. “Assim como o Sol, o Jesus que imagino brilha demais para ficar contido dentro de um templo. Se os Evangelhos estiverem certos sobre o tamanho do seu amor pela humanidade, todos os Evangelhistas deveriam gritar para seus fiéis: Saiam agora de dentro da capela, saiam agora da igreja. Vão lá fora e sintam os raios do sol; abracem o brilho da lua e vocês terão uma pequenina idéia da luz que Jesus emitia.”

E ela continuou:

“Frank, você sabe o quanto eu respeito a história e as tradições das religiões; mas, para mim, Jesus estava tão presente no Santo Sepulcro e na Via Dolorosa quanto os raios de sol estavam presentes dentro de um quarto escuro.”

Jerusalém, 01 Março de 2005.

- Nota de Wagner Borges: Frank é o pseudônimo do nosso amigo Francisco, participante do grupo de estudos do IPPB e da lista Voadores, que atualmente mora em Londres. Ele escreve textos muito inspirados e nos autorizou a postagem desses escritos. Neste momento ele está em viagem de férias pelo Oriente Médio, de onde remete os seus escritos contando sobre suas observações e reflexões conscienciais. Há diversos textos dele postados em sua coluna da revista on line de nossa página e em nossa seção de textos projetivos e espiritualistas, em meio aos diversos textos já enviados anteriormente. www.ippb.org.br

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