VENDEIROS DOS TEMPLOS

Eu me compadeço dos que clamam o dízimo para dizimar a inteligência dos fiéis!
Eu me compadeço dos que barganham com Deus e oferecem orações como moeda de troca.
Eu me compadeço dos que acendem um incenso à espera de um milagre, pois que não acendem uma lâmpada sequer nos corações.
Eu me compadeço dos que despacham aos santos à cata do ser amado, e não despacham de si, o ciúme e a possessão.
Eu me compadeço dos que vendem energia em três vezes sem juras de evolução.
Eu me compadeço dos que se escondem por detrás dos pecados e confessam somente as suas virtudes.
Eu me compadeço dos que escutam os pecados e os revertem em rezas.
Eu me compadeço dos que ofertam o corpo de Cristo e incorporam a alma do diabo.
Eu me compadeço dos que bradam em demasia a vergonha, pois que camuflam sua luxúria nos becos imundos da hipocrisia.
Eu me compadeço dos que promovem bacanais em nome do Sagrado e dos que chafurdam numa moralidade profana.
Eu me compadeço dos profetas que preconizam a miséria dos outros e assistem ao apocalipse, cingidos de ouro e pedras preciosas.
Eu me compadeço dos que têm a pretensão de ensinar como se vive e vivem aprendendo como se morre.
Eu me compadeço daqueles que prometem a salvação num hotel cinco estrelas do paraíso e passam suas férias no inferno.
Eu me compadeço dos que curam apenas por cartão de crédito e não crêem.
Eu me compadeço de mim, que tantas vezes fui aos vendeiros dos templos.
E já me vendi, posto que já fui alugado.
Eu me compadeço por não ter me fiado em Deus e não ter fechado às portas dos que me vendiam ao Senhor.
E não ter tido fé na promessa de que nada, absolutamente nada, me faltaria!
Eu me compadeço.

- Mauricio Santini -
São Paulo, 30 de janeiro de 2004.

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