MANJU

- Por Vanderlei Oliveira -


Certo dia, Manju, em busca de sua evolução espiritual, foi a uma palestra em que se falava sobre liberdade.

Liberdade dos homens, das mulheres, liberdade nas relações, liberdade dos animais...

Ao final da palestra, voltou para casa e ficou retido em seus pensamentos, um pouco orgulhoso por estar só, por não aprisionar nada, nem ninguém!

Adormeceu com esses pensamentos.

Na manhã seguinte, como acontecera desde muitos anos, foi acordado pelo canto belo e delicado dos pássaros do seu vizinho; um canto alegre e motivador, que o inspirava a começar sempre um novo dia.

Porém, naquela manhã, após tudo o que tinha ouvido, esse sentimento passou de um gostoso bem estar a uma grande raiva inconformada, que impulsionou um pensamento:

- Adoro esse canto, mas esses pássaros deveriam ser livres para cantar na janela de outras pessoas também, pelas manhãs, tardes ou noites, onde e quando quisessem.

Armou um plano e, mais à tarde, enquanto o vizinho e a esposa saíram de casa, pulou o muro e libertou os pássaros.

- Vão! Voem pássaros, vocês estão livres! Cantem, vivam, ninguém mais vai aprisionar vocês agora!

Dentro de si, uma sensação gostosa de um orgulho heróico! Após uma inspiração profunda, estufando o peito, flutuou com seus pensamentos:

- Isso, todos devem ser livres, todos temos o direito à liberdade.

Nesse momento, olhou para o bar na calçada em frente e viu um antigo amigo chorando; correu até lá e descobriu que o amigo chorava por causa de seu relacionamento, chorava por ciúmes de sua amada.

Então, com um tom de heróica naturalidade, esboçou um leve sorriso e dissertou tudo o que ouvira sobre liberdade na noite anterior, sobre como todos deveriam ser livres e libertar os seres amados, dizendo isso com tanta convicção, que convencia até mesmo os ouvintes mais distantes do bar.

Seu amigo, agora motivado e com certa esperança, sai, então, agradecendo muito pela sabedoria dele e volta para sua casa.

Sentia-se agora um grande espiritualista, alguém que conhecia o caminho da felicidade e poderia tornar a todos felizes com a sua fórmula mágica, chamada liberdade!

Três dias se passaram, e mais uma vez ele acorda pela manhã, só que, agora, não com o canto dos pássaros, mas com o choro de tristeza do vizinho, que havia perdido seus bichos de estimação, e com a voz lamentosa da mulher dele, que repetia:

- O que faremos quando nossos netos vierem nos finais de semana? O que diremos a eles?

Um sentimento estranho passou-se dentro de Manju, mas ele logo o ignorou, dando vazão dentro de si a uma crítica aos vizinhos:

- Isso não se faz, bem feito, queria ver se fossem eles nessa gaiola! Será que iriam cantar?

Algum tempo depois, ele sai de casa e vê aquele seu amigo saindo do mesmo bar, desconsolado e novamente chorando muito.

Então, ele se dirige rapidamente até o bar, mas seu amigo já havia partido, encontrando apenas o balconista, a quem perguntou:

- O que houve? Por que ele chora?

E obteve a resposta:

- Ele chegou em casa naquele dia e disse à sua esposa que deveriam se libertar, um ao outro, que ciúmes era um defeito, era orgulho e senso de posse, que assim não teria como a relação deles dar certo e seria mais difícil para evoluírem como seres humanos. Ontem à noite, quando chegou do trabalho, encontrou suas coisas todas na rua, sua esposa chorava e gritava da janela que ele estava dizendo tudo aquilo por que já tinha a intenção de ir embora e que, provavelmente, ele tinha outra mulher e, se ele queria a liberdade, então ele a tinha agora, pois até pouco tempo atrás eles eram felizes e se sentiam livres no relacionamento! Ela gritava que aquele discurso todo, naquele momento, significava que ele queria se separar dela e que era a confirmação da tal "liberdade" que ele almejava para, na verdade, traí-la.

Manju ficou chocado, sentindo-se culpado e um tanto desnorteado com aquilo que ouviu; não sabia o que pensar ou sentir, como poderia a fórmula ter dado nisso, não teria como falhar, no mínimo foi um erro de entendimento dela, ou ele não explicou direito ou falou na hora errada!

Manju saiu do bar, pensativo e cabisbaixo. Mais à frente, ao dar alguns passos na calçada, viu um dos pássaros que ele libertou, caído, com um pé e uma asa quebrada, tentando com muita dificuldade se movimentar no chão.

Ele olhou aquilo, viu o sofrimento do pássaro e lembrou-se de todos os anos que aquela ave cantou feliz e o acordou pelas manhãs com o canto alegre e disposto. Lembrou-se das manhãs, que, mesmo quando cinzas e chuvosas, eram recebidas com alegria por aqueles dois pássaros.

Naquele momento, ele teve sua primeira desilusão, descobriu que não existia fórmula mágica, que as coisas não eram como ele havia imaginado, que liberdade é algo que não pode ser dado, é algo que precisa ser descoberto e conquistado, é algo inerente ao ser. Que, muitas vezes, o que é prisão para uns, é felicidade para outros, e vice-versa. Que, mesmo presos, havia amor entre os pássaros e sua família, e que, ao libertá-los, na verdade, ele os tirou de sua casa e de sua família sem ter noção se eles sabiam voar, ou se sabiam achar alimentar sozinhos; que eles não tinham essa referência de liberdade, portanto, não se sentiam presos.

Descobriu que, para interpretar liberdade, vida e ser humano, é preciso grande clareza, grande sabedoria, com isenção de grandes paradigmas e emocionalismos, e uma compreensão perante os fatos relativos à vida de alguém.

Então, Manju concluiu que ele mesmo não era livre, apenas havia descoberto que a liberdade existe, mas, no fundo, ele não sabia o quê e como ela era realmente e como deveria tornar sua vida o caminho para essa descoberta. Um conhecimento que mostraria o que a liberdade significa no seu íntimo, e não uma fórmula mágica para mudar o mundo instantaneamente.

Precisamos da experiência vivida para avaliar os valores envolvidos em cada fato, a todo momento, dentro de nós e nas situações da vida. Essa experiência é o que mais nos guia em direção a como nos relacionamos e tratamos com os outros; interpretando o que poderia ser o melhor para todos. Precisamos nos libertar de nossas prisões interiores (culturais, religiosas e emocionais, dentre tantas outras), para que possamos, um dia, descobrir o que é liberdade.

Consciente, Manju pediu perdão, em seu íntimo, voltou para casa e recolheu-se em meditação profunda!


- Nota: * Manju (do sânscrito): belo, formoso.

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