1104 - A FOLHA DA ÁRVORE PIPAL
- Por Thich Nhat Hanh* -
Sob a árvore pipal, o eremita Gautama** focou todos os seus formidáveis poderes de concentração para examinar profundamente o seu corpo. Observou que cada célula era como uma gota de água de um rio fluindo infindavelmente através do nascimento, existência, morte, e não conseguia encontrar nada no corpo que permanecesse imutável, ou que se pudesse dizer que contivesse um eu independente. Intermesclado com o rio do seu corpo, estava o rio dos sentimentos, no qual cada sensação era uma gota de água. Essas gotas também se misturavam umas com as outras num processo de nascimento, existência e morte. Alguns sentimentos eram prazerosos, alguns, desagradáveis; alguns, neutros, porém tudo era impermanente: eles apareciam e desapareciam assim como as células do corpo.
Com sua grande concentração, Gautama explorou a seguir o rio das percepções que seguem fluindo ao longo dos rios do corpo e dos sentimentos. As gotas no rio das percepções mesclavam-se e influenciavam uma à outra em seu processo de nascimento, existência e morte. Se a percepção de alguém era equivocada, a realidade lhe aparecia velada. Ele viu que as pessoas eram apanhadas em infindável sofrimento devido às suas percepções distorcidas: elas acreditavam ser permanente, o que é impermanente; acreditavam ser um eu, o que não é um eu; acreditavam que aquilo que não tem nascimento e morte, tem nascimento e morte, e dividiam em partes o que é inseparável, indivisível.
Em seguida, Gautama focou a luz da sua consciência sobre os estados mentais que eram fontes de sofrimento – medo, raiva, ódio, arrogância, inveja, apego e ignorância. A plena consciência irradiou-se dentro dele como um sol brilhante, e ele utilizou aquele sol de consciência para iluminar a natureza de todos estes estados mentais negativos. Viu que eles emergiam devido à ignorância. Eram o oposto da mente atenta. Eram a escuridão – a ausência de luz. Ele viu que a chave da liberação residia em sobrepujar a ignorância e penetrar profundamente no coração da realidade, atingindo uma direta experiência dela. Esse não era um conhecimento baseado no intelecto, no raciocínio, mas na experiência direta.
No passado, Sidarta havia andado por inúmeros caminhos para dominar o medo, a raiva e o apego, porém os métodos que tinha utilizado não geraram frutos porque eram apenas tentativas de suprimir tais sentimentos e emoções. O monge agora entendia que a causa deles era a ignorância e que, quando alguém se desvencilha da ignorância, os obscurecimentos mentais se desvanecem por si mesmos, como sombras desaparecendo sob a luz do sol nascente. O vislumbre de compreensão de Sidarta era fruto de sua profunda concentração.
Ele sorriu e elevou o olhar para uma folha da árvore pipal impressa contra o céu azul, sua haste revoando para frente e para trás como se o estivesse chamando. Olhando profundamente para a folha, com clareza, viu a presença do sol e das estrelas – sem o sol, sem a luz e o calor, ela não existiria. Isto é assim, porque aquilo é daquela maneira. Também viu, na folha, a presença das nuvens – sem nuvens, não poderia haver chuva e, sem a chuva, a folha não poderia ser. Ele viu a terra, o tempo, o espaço e a mente – todos estavam ali presentes. Realmente, naquele exato momento, o universo inteiro existia naquela folha. A realidade da folha era um maravilhoso milagre.
Embora, ordinariamente, pensemos que uma folha nasça na primavera, Gautama podia ver que ela já estava lá por um longo, longo tempo, na luz do sol, nas nuvens, na árvore e nela mesma. Vendo que a folha jamais havia nascido, pôde ver que ele próprio também jamais havia nascido. Ambos, a folha e ele mesmo, tinham apenas se manifestado – nunca tinham nascido e, assim, eram incapazes de morrer. Com este vislumbre de consciência, ideias tais como nascimento e morte, aparecimento e desaparecimento, dissolveram-se, e a verdadeira face da folha, assim como a sua verdadeira face se revelaram. Ele pôde ver que a presença única de qualquer fenômeno tornava possível a existência de todos os demais fenômenos. Um incluía todos, e todos estavam contidos em um.
A folha e seu corpo eram um. Nenhum deles possuía um eu separado ou permanente. Nenhum deles podia existir independentemente do restante do universo. Vendo a natureza interdependente de todos os fenômenos, Sidarta viu a natureza vacuosa de tudo – que todas as coisas eram desprovidas de um eu separado, isolado. Ele percebeu que a chave da liberação repousava nestes dois princípios de interdependência e não-eu. As nuvens flutuavam através do céu, formando uma alva base para a translucente folha da árvore pipal. Talvez, naquele entardecer, as nuvens encontrassem uma frente fria e se transformassem em chuva. Nuvens eram uma manifestação; a chuva, outra. As nuvens também eram não-nascidas e não morreriam. Se as nuvens compreendessem aquilo, Gautama pensou, com certeza, cantariam alegremente enquanto caíssem em forma de chuva sobre as montanhas, florestas e campos de arroz.
Iluminando os rios do corpo, sentimentos, percepções, formações mentais e consciência, Sidarta agora entendia que a impermanência e ausência de um eu são as próprias condições necessárias à vida. Sem a interdependência e ausência de um eu, nada poderia crescer ou se desenvolver. Se um grão de arroz não tivesse a natureza da impermanência e da vacuidade em relação a um eu, ele não poderia transformar-se na muda de arroz. Se as nuvens não fossem desprovidas de um eu e impermanentes, não poderiam se transformar em chuva. Sem a natureza impermanente e desprovida de um eu, uma criança jamais se transformaria em um adulto. “Logo, – ele pensou – aceitar a vida significa aceitar a impermanência e a ausência de um eu. A fonte do sofrimento é a falsa crença na permanência e na existência de eus separados. Vendo isso, entender-se-ia que não há nem nascimento nem morte, nem produção nem destruição, nem um nem muitos, nem interior nem exterior, nem grande nem pequeno, nem puro nem impuro. Tais concepções são falsas distinções criadas pela falsa intelecção. Se alguém penetrar na natureza vacuosa de todas as coisas, transcenderá todos os obstáculos mentais e se liberará do ciclo de sofrimento.”
De uma noite à seguinte, Gautama meditou sob a árvore pipal, fazendo brilhar a luz da sua consciência por sobre seu corpo, mente, e todo o universo. Seus cinco companheiros já o haviam abandonado há bastante tempo, e seus copraticantes eram, agora, a floresta, o rio, os pássaros e os milhares de insetos viventes na terra e nas árvores. A grande árvore pipal era sua irmã de prática. A estrela vespertina que aparecia enquanto ele se sentava em meditação a cada noite, também era sua irmã de prática. Ele meditava até alta madrugada.
As crianças da vila vinham visitá-lo somente no começo da tarde. Um dia, Sujata trouxe para ele uma oferenda de mingau de arroz cozido com leite e mel, e Svasti trouxe uma braçada de grama kusa fresca. Após o menino retirar-se para conduzir os búfalos de volta à casa, Gautama foi sendo dominado por um profundo sentimento de que alcançaria o Grande Despertar naquela mesma noite. Na noite anterior, havia tido vários sonhos incomuns. Em um deles, viu-se deitado lateralmente, com sua cabeça repousando sobre um travesseiro constituído pelas montanhas dos Himalaias; sua mão esquerda tocando as praias do mar ao leste; sua mão direita tocando as praias do mar ao oeste, e seus dois pés descansando contra as praias do mar ao sul. Em outro sonho, uma enorme flor de lótus, tão grande quanto uma carruagem, crescia do seu umbigo e flutuava até tocar as nuvens mais altas. Num terceiro sonho, incontáveis pássaros, de todas as cores, voavam para ele, vindos de todas as direções. Estes sonhos pareciam anunciar que seu Grande Despertar estava bem próximo.
Muito cedo, naquela tarde, Gautama meditou andando ao longo das margens do rio. Ele desceu até a água e se banhou. Quando o crepúsculo começou, retornou para sentar-se embaixo da costumeira árvore pipal. Sorriu assim que enxergou a verdejante grama kusa bem-arranjada aos pés da árvore. Nesse mesmo lugar, ele já havia feito tantas descobertas importantes em sua meditação. Agora, o momento que tanto aguardava estava se aproximando. A porta para a Iluminação estava por se abrir.
Lentamente, Sidarta sentou-se em posição de lótus. Ele olhou, a distância, para o rio que fluía silenciosamente, enquanto a brisa suave roçava nas forragens ao longo das margens. A noite na floresta era tranquila, ainda que extremamente vívida. Em volta dele, trinavam milhares de diferentes insetos. Ele voltou sua consciência para a respiração e semicerrou seus olhos. A estrela vespertina apareceu no firmamento.
(Texto extraído do livro “Velho Caminho, Nuvens Brancas – Seguindo as Pegadas do Buda” – Editora Bodigaya – 2007.)
- Notas:
* Thich Nhat Hanh – nascido no Vietnã, em 1926, é poeta, mestre Zen e ativista da paz, sendo autor de 75 livros. Presidiu a Delegação Budista da Paz em Paris, durante a guerra do Vietnã, tendo sido indicado por Martin Luther King Jr. para o Prêmio Nobel da Paz.
** Sidarta Gautama – o Buda (Índia; 500 a.C.).
Obs.: Buda - do sânscrito - O Iluminado; Aquele que despertou! Palavra derivada de “Buddhi”, que significa “Iluminação Pura” ou “Inteligência Pura”. Ou seja, quem alcança o estado de Buddhi, torna-se um Buda, um ser iluminado e desperto.
Texto <1104><29/06/2011>
