1184 - ERA UMA VEZ UM VIAJANTE...

- Por J. J. Benitez -
 
Conheci um eterno viajante.
Esse homem dedicou sua vida ao conhecimento e à investigação.
Desde pequeno – desde que alguém falou-lhe pela primeira vez de um Deus infinitamente sábio e generoso – esse homem sentiu o desejo de ser viajante.
- Se esse Deus existe – repetia – eu o encontrarei...
Tanto caminhou que esqueceu a cor da terra onde nascera.
Interpelou os picos cobertos de neve. Mas os homens das neves não souberam
responder-lhe. Naqueles cumes não conheciam o paradeiro desse Deus.
Então desceu até as planícies.
Conviveu com os velhos feticeiros, mas seus desuses eram de cana e fogo. De vingança e terror. Assim, voltou para a cidade grande, o coração assaltado pela dúvida.
Interpelou os cidadãos:
- Um Deus infinitamente sábio e generoso?
- Impossível! – responderam na grande metrópole. Esse Deus é uma quimera... Se realmente existisse, nós, os dirigentes do mundo, o conheceríamos.
Entretanto, ele nunca participou de nossos planos econômicos. Nem de nossas guerras. Tampouco foi visto em nossos senados e parlamentos. Não tivemos informação de sua existência através dos astronautas e exploradores.
Nós, os poderosos, os governantes e os cientistas, jamais tivemos notícias dele.
E quem melhor e mais preparado do que nós, os ilustres na Terra, para estabelecer esse contato com o Deus que procura?
Meu amigo, o eterno viajante, sentiu-se perecer.
Parecia não haver dúvida de que esse Deus infinitamente sábio e justo era fruto apenas da imaginação.
Ele se retirou, desconsolado, pra as brumas de sua solidão.
Em meio a essa solidão, meu amigo tomou uma decisão: faria uma última “viagem”...
E recolhendo-se em si mesmo, adentrou o espaço desconhecido de seu próprio coração.
E lá teve a maior de todas as surpresas. No novo caminho – descerrado por uma casualidade – descobriu a paisagem mais luminosa e impressionante, nunca antes imaginada.
Aquele “novo mundo”- imaterial – tinha as formas por ele desejadas a cada instante. E todas as suas dúvidas foram solucionadas.
Seu corpo, aparentemente, não era mais de carne, nem de dor, desejo ou deseperança. Seu corpo era presente, passado e futuro, Tudo ao mesmo tempo. Era luz e força.
E conquanto não conseguisse ver ninguém, sentiu que “alguém”o acompanhava.
Perguntou se ali, naquele “novo reino”, conheciam o Deus infinitamente sábio e bondoso.
Um voz, surgida das profundezas de seu novo “ser”, falou-lhe:
- Por que buscas fora de ti AQUELE que está sempre dentro de ti?
 
(Texto extraído do livro "Sonhos" - do jornalista, pesquisador e escritor espanhol J. J. Benitez - Editora Record.)

Texto <1184><27/06/2012>