201 - DESDOBRAMENTO - FENÔMENOS DE BILOCAÇÃO
Creio que, por sentimento de amizade, selada pelo tempo, é que ele (Klóris Werneck) se lembrou de pedir-me este prefácio, para uma das mais importantes obras de Ernesto Bozzano, direi mesmo, uma das mais úteis, senão a mais proveitosa que o inesquecível e saudoso filósofo legou à posteridade.
O fenômeno de bilocação é um dos mais prestantes em matéria psíquica, porque evidencia a independência da alma em relação ao corpo. Provado que o espírito não está servilmente preso ao organismo, que não é um simples escravo das funções orgânicas, que tem seus momentos de fuga, desprendendo-se ou libertando-se, ainda que momentaneamente, das amarras físicas, fácil é compreender que esse espírito possa, no final da vida, desligar-se para sempre do seu envoltório carnal, para continuar a viver fora dele, nessa fase intérmina da existência, fase a que chamamos morte.
Da importância do fenômeno, dizíamos há pouco ao Professor Henrique Rodrigues, quando ele, como diretor de um programa de televisão, interrogava uma jovem que se apresentara ao mesmo programa voluntariamente. Narrava ela, sem achar explicação para o fato, o que lhe sucedia, isto é, o sentir-se fora do corpo, o de flutuar acima dele, vendo-o afastado, inerte, como se estivesse morto, no leito em que se achava.
Não é um caso insólito, antes um fato ameudado, com as mesmas características que se reproduz em pessoas de religiões diversas, sem nenhum conhecimento de psiquismo. Essa uniformidade, como acentua Bozzano, é de grande valor teórico e prático, é a demonstração da regularidade e autenticidade do fenômeno, que se apresenta, provando patentemente a dualidade - corpo e espírito -, e ainda mais, de que não se trata de duas partes indissoluvelmente ligadas, perecendo uma quando a outra aparece.
Se pouco se conhece do fenômeno, se não o vemos constantemente divulgado, é pelo receio de que têm os pacientes de passar por desequilibrados. Disso fui especialmente testemunha, quando durante dez anos lidei com pessoas que procuravam o tratamento espiritual para as suas enfermidades de ordem mental, para esses desequilíbrios que têm levado tanta gente aos sanatórios, porque a causa da moléstia ou do fenômeno ainda não foi percebido pela Academia.
Tive ocasião de ouvir a descrição de casos semelhantes ao da moça televisionada. Os doentes, que como tal supunham, contavam os seus casos muito em segredo, confiantes em minha descrição, porque até da família escondiam o que com eles se passava. Temiam ser tidos como malucos, receiavam as medidas paternas ou de seus familiares, mas o caso é que se viam separados do corpo, eles num ponto, o corpo em outro; às vezes supunham-se mortos, o que lhes causavam indescritível terror. Eu lhes explicava então o fenômeno, mostrava-lhes a naturalidade do fato, convencia-os de que não havia por que temer.
À vezes, os passes mediúnicos, as preces, o desenvolvimento do mediunismo, por parte do sensitivo, ou o auto-domínio, punham termo ao fenômeno. E quando ele não se extinguia, a nossa exposição do que se tratava era bastante para acalmar a pessoa; ela encarava o desprendimento com serenidade ao invés de impedi-lo, procurava examiná-lo com curiosidade. Em geral, tais fatos não são renitentes, tendem a esvanescer com o tempo, com a força de vontade do paciente, com o seu desejo para que ele não se reproduza e até com o revigoramento do corpo, revigoramento esse que contribui para melhorar a situação dos parafusos.
Há poucos dias, ainda tivemos a visita de uma jovem, cujo nome não apresentamos, apesar de sua autorização, por não saber se isto agradaria à família, mas temos aqui os dados à disposição do estudioso ou do duvidoso que os quiser examinar.
É a senhorita E.B.A, moradora nesta cidade de Niterói, onde eu moro e onde nasceu Werneck. Sua residência fica à Rua Marques de Olinda. Tem ela 27 anos de idade. Possuía grande desequilíbrio nervoso, que a medicina chama neurose de angústia. Fora submetida ao processo terapêutico dos choques e nessas ocasiões, via-se subitamente fora do organismo; não mais sentia qualquer abalo físico ou mental e percebia o corpo imóvel, estendido no leito, como se estivesse desacordada. Percebia as pessoas que lhe estavam perto e o que se fazia ao redor. Ficava excessivamente surpresa e tomava o corpo cheia de temores.
Como não conhecia o fenômeno, narrava-o, muito admirada, e tomava-o como conseqüência de sua doença. Tive que explicar-lhe não haver propriamente uma relação entre o fenômeno e a doença, senão o desprendimento de seu espírito, devido talvez aos choques. Expliquei-lhe ainda que existiam vários casos dessa natureza, sem que os pacientes sofressem de abalos nervosos. Ela possuiria apenas o dom de abandonar "a casca", isto é, de afastar-se do corpo físico, e ao contrário de outros e outras, percebia o fenômeno e recordava-o.
Lembro-me ainda que, na minha infância, ouvia o professor Amaro Barreto, um genial pianista, contar, admirado, que depois de certa doença, ou durante a mesma, via-se no espaço a contemplar o que se passava no quarto, e o mais interessante é que notava achar-se ele também na cama. - Eram dois Amaros - explicava ele a meu pai, que era médico, isto rindo-se muito do jocoso incidente. Não me recordo das explicações que meu pai apresentou, que não poderiam diferir muito das conhecidas alucinações.
Deixei de registrar os casos semelhantes, observados na Federação Espírita Brasileira, porque era princípio naquela instituição não tomarmos anotações, visto que, diziam os dirigentes, não só não nos compete esse estudo, de casos particulares, como porque não temos aqui fins de estudo, senão simplesmente o da caridade, além de que o interesse da observação e da pesquisa poderá desvirtuar nosso verdadeiro alvo.
Não concordei lá muito com a prescrição, mas, disciplinado, submeti-me e assim perdeu-se um substancioso manancial ou um grande acervo de provas.
É uma série de fenômenos dessa natureza que Ernesto Bozzano relata em sua monografia, estudando o assunto e encarando-o pelas diversas fases em que ele se apresenta.
Bozzano parte da idéia de integridade nos amputados, que têm a sensação perfeita da existência da parte do corpo que lhes foi retirada; a dos hemiplégicos, que percebem no lado paralisado a secção correspondente do duplo, isto é, do corpo etéreo ou perispírito, com a integridade sensorial subtraída; o desdobramento em que o indivíduo vê o segundo eu, que é o seu duplo, o seu fantasma. Essa visão pode estar no corpo, e dele vê-se o fantasma, ou estar no fantasma, o duplo, e dele vê-se o corpo.
Há casos mais amplos em que o indivíduo se transporta a grandes distâncias, e finalmente o desprendimento do leito mortuário, onde o espírito vai deixando lentamente o corpo até o seu completo desenlace, que é a inteira liberdade pela morte.
Tais fenômenos se realizam em momentos de crise física e podem acontecer no sono comum, na hipnose, na síncope, na letargia, nas intoxicações e até no coma.
Tal é o vigoroso estudo que Francisco Klors Werneck traduziu, aumentando destarte a sua já extensa bagagem literária. É um inestimável serviço prestado à Causa, visto que os livros de Bozzano são pouco conhecidos, dificilmente encontrados em nossas livrarias, estando já esgotados as obras originais. Acresce que a importação do livro estrangeiro é hoje problema de difícil solução, pois que atinge à proporções astronômicas o seu preço.
Em suma, o trabalho do companheiro e velho amigo, sem nenhuma lisonja, vem fazê-lo subir mais um degrau na longa escada da espiritualidade.
Niterói, 10/01//69
* Notas de Wagner D. Borges:
Na década de 1980 saiu um outra edição desse livro pela Editora Correio Fraterno do ABC com o título: "Fenômenos de Bilocação - Desdobramento".
O italiano Ernesto Bozzano (foi um dos maiores pesquisadores de fenômenos parapsíquicos e espirituais do século 20. Vários de seus livros abordaram o tema das projeções da consciência, principalmente estes: "Metapsíquica Humana", FEB (há um capítulo específico sobre projeção), "Animismo ou Espiritismo?", FEB (há um capítulo excelente sobre a projeção) e "Comunicações Mediunicas Entre Vivos", Edicel (é um dos melhores livros dele).
Um de seus livros é um clássico sobre vida após a morte até hoje: "A Crise da Morte", FEB. Há um outro bem interessante sobre a imortalidade dos animais: "Os Animais Tem Alma?", ECO.
É dele também essas duas obras fantásticas permeadas pelos seus argumentos sempre sensatos e ponderados: "Enigmas da Psicometria", FEB e "Xenoglossia", FEB (livro sobre comunicações interdimensionais passadas em línguas estranhas ao receptor. Há duas experiências relatadas por dois projetores famosos da primeira metade do século 20: Vincent Newton Turvey - autor do primeiro livro de relatos de projeção do século 20: "The Begnings of Seership" - 1905, Inglaterra - e William Dudley Pelley, escritor americano que no início da década de 1930 teve um projeção incrível, narrada no seu livrinho "Sete Minutos na Eternidade").
Muitos pesquisadores modernos acham que os livros do Bozzano, escritos na primeira metade do século 20, estão obsoletos. Isso não é verdadeiro, pois as interpretações podem ser mais modernas hoje, mas as características dos relatos projetivos ainda são iguais em toda parte. As sensações de catalepsia, estado vibracional, ballonement (dilatação da aura), presença de amparadores e tantas outras coisas referentes ao tema abundam nas obras de Bozzano.
Oportunamente extrairei alguns relatos de algumas de suas obras e postarei aqui no site para análise dos leitores.
Embora a maioria dos livros do Bozzano sejam editados até hoje pela editora da Federação Espírita Brasileira (FEB), ele não era espírita e sua abordagem era bastante universalista.
Texto <201><08/03/2000>
