247 - PENSAMENTOS E VISLUMBRES
Quanto maior a destruição, mais profusas as chances de criação; mas a destruição é freqüentemente longa, demorada e opressiva, a criação tardia em seu aparecimento ou interrompida em seu triunfo. A noite retorna outra vez e mais outra, e o dia tarda a chegar ou parece mesmo ter sido um falso alvorecer. Não te desesperes, portanto, mas vigia e trabalha. Aqueles que esperam violentamente, desesperam-se rapidamente: não esperes nem tenha medo, mas fica certo do propósito de Deus e de tua vontade em realizar.
A Mão do Divino Artista trabalha freqüentemente como se estivesse insegura de seu gênio e de seu material. Parece tocar e testar e deixar, apanhar e jogar fora e apanhar de novo, laborar e falhar e remendar e juntar outra vez. Surpresas e desapontamentos são a ordem de seu trabalho antes que todas as coisas estejam prontas. O que foi selecionado é lançado no abismo da desaprovação; o que foi rejeitado, torna-se a pedra fundamental de um poderoso edifício. Mas por trás de tudo isso está a visão segura de um conhecimento que ultrapassa nossa razão e o sorriso vagaroso de uma habilidade infinita.
Deus tem todo o tempo diante de si e não necessita estar sempre correndo. Ele está certo de seu objetivo e sucesso e não se importa de quebrar seu trabalho centenas de vezes para o trazer mais perto da perfeição. Paciência é nossa primeira grande lição, mas não a apática lentidão que move o tímido, o cético, o fraco, o preguiçoso, o não ambicioso ou o débil: uma paciência cheia de uma força calma e concentrada que observa e se prepara para a hora das grandes passadas rápidas, poucas, mas suficientes para mudar o destino.
Por que Deus martela tão ferozmente seu mundo, pisa-o e trabalha-o como se fosse uma massa, lança-o tão freqüentemente num banho de sangue e no calor do inferno rubro da fornalha?
Porque a massa da humanidade é ainda um minério duro, grosseiro, desprezível, que de outra forma não seria fundido e moldado; conforme seu material, assim seu método. Que isso ajude a transmutá-la em metal mais nobre e mais puro, e sua maneira de tratá-la será mais gentil e suave, mais elevados e belos seus usos.
Para que Ele selecionou ou fez tal material quando tinha todas as infinitas possibilidades de escolha? Por causa de sua Divina idéia que viu diante de Si, não apenas beleza e doçura e pureza, mas também força e vontade e grandeza. Não desprezes a força, nem a odeie pela feiúra de algumas de suas faces, nem pense que o amor apenas é Deus. Toda perfeição perfeita deve ter em si algo do estofo do herói e mesmo do Titã. Mas a maior força nasce da maior dificuldade."
- Sry Aurobindo -
(Texto extraído do livro "Sabedoria de Sry Aurobindo"; Editora Shakti).
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Texto <247><19/11/2000>
