254 - O ARAUTO E O QUE VEM DEPOIS...
E se o tempo é o solo que se estende à nossa frente, separando-nos do fim... se o tempo é apenas o mecanismo que cadencia os fatos que coexistem simultâneos, organizando-os um após o outro para que possam gerar aprendizado e serem percebidos pela mente.
Em algum lugar há um ser, desprendido do tecido do tempo, que nos tornaremos...
Imagino esse ser sentado à sombra de uma árvore, secando o suor da fronte e olhando, do alto do que se tornou, aqueles que já foram. Somos nós os observados.
E esse ser, que tudo presencia, no dia de nossa morte tomará nossa mão e dançará conosco. E em sua música nos contará de nossas alegrias e tristezas, de nossos temores e nossas saudades. Relatará tudo o que vivemos e o que deixamos de viver, os sorrisos que sopramos gratuitos ao vento e os rancores que distribuímos as favas entre os seres que amávamos. Da nossa loucura. Da mesquinhez de nossas convicções e dogmas de um adulto absurdo e da guerra que lutou e perdeu nosso coração de criança. Contará de nossas amizades irrecuperáveis e das indescritíveis pequenas alegrias compartilhadas. Do anjo e da besta que em nosso peito abrigamos. Do amparador e do obsessor que fomos. Do que acreditávamos e defendíamos com a vida, e dos temores que povoavam nossas noites. Das madrugadas que choramos, caminhando a sós entre os escombros de nosso reino e dos castelos que pilhamos sem ouvir a cacofonia do choro esquecido que causamos. Da beleza de nossa mão estendida e da frieza de nosso punho cerrado. E envoltos nessa sublime dança, gargalharemos juntos ao vento, contemplaremos o topo do mundo e seremos eternos.
- Paulo Roberto Miranda -
(Texto postado originalmente na lista Paz e Luz)
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Nota de Wagner D. Borges: Paulo Roberto Miranda é um dos companheiros da lista Paz e Luz. Ele nos autorizou a postarmos esse belo texto para todas as pessoas cadastradas em nosso site.
Texto <254><14/12/2000>
