256 - DESCASCANDO A DOR DE UMA PERDA
Olá, rapaz! Tudo bom com você?
Soube hoje que seu pai foi embora, descascou do corpo denso e foi dançar com Brahman nas pistas da espiritualidade.
Não tenho muito a dizer. Você já sabe o que penso a respeito, pois me conhece há muitos anos.
Ninguém morre mesmo, mas você também já sabe disso e nem precisa que alguém lhe diga sobre a certeza que viaja em seu coração. Mas, nessas horas de despedidas temporárias, sobram emoções e diversas sensações surgem, não se sabe de que cantinho oculto no subconsciente, para atormentar o discernimento. Fora a pressão familiar e a avalanche emocional que se forma na atmosfera psíquica em torno dos entes queridos e daquele que está partindo.
Em lugar do silêncio respeitoso por quem está indo de encontro a outra etapa de vida, violentas ondas emocionais arrojando-se contra os corações, que deveriam confiar mais no amor, e destituindo-os daqueles sentimentos elevados que poderiam ajudá-los a conviver com a perda.
Sabe, o que cada um sente dentro de si mesmo afeta os outros por repercussão psíquica. Estamos mais ligados do que pensamos. Vivemos na mesma atmosfera do mundo. Para conectar as vibrações é só sintonizar psiquicamente com o que os outros também estão sentindo no mesmo momento. É a velha lei da sintonia: semelhante atrai o semelhante.
Ondas de dor procuram ondas de dor; ondas de amor procuram ondas de amor.
Na hora de uma perda significativa, é mais do que natural que apareçam emoções variadas no palco da consciência. Mas, meu amigo, também aparecem intuições profundas vindas dos amparadores extrafísicos. Em meio à dor da perda, há ondas de amor viajando também. Elas são invisíveis, devido à sua sutileza natural, mas são bem reais. Porém, só podem ser percebidas no silêncio do coração espiritual.
Por sua vez, esse só está apto a tal percepção quando desaparece a turbulência e em seu lugar instala-se aquela percepção abrangente, que comunica no interior da alma que ninguém morreu e que toda sensação de perda é ilusória quando comparada com a imensidão da vida em todas as dimensões.
Lembro-me de que uma vez você me perguntou: "Por que tem que ser assim?"
A minha resposta ainda é a mesma: "Sei lá, só sei que é! Se é bom ou ruim, depende. Mas, ninguém morre e só por aí já vejo um imenso lucro na economia da natureza. Quando penso nisso, me dá uma alegria danada. Saber que sou imortal e que todos também o são me faz pensar em um monte de outras coisas interessantes, inclusive na questão de que saber o porquê tem que ser assim não altera que isso é assim e pronto. Faz parte do jogo de viver, morrer e viver..."
No momento não tenho nada para dizer-lhe sobre a passagem do seu pai. Só sei de uma coisa: ele está vivo! E você também sabe. E o universo inteiro sabe. Os amparadores (que você tanto admira, mas freqüentemente se esquece nas horas difíceis) sabem. E Deus sabe.
Só quem não sabe são as pessoas que estão chorando à beira do túmulo e com o coração enlutado (o luto aí é só uma cor significando uma perda ou é um estado de consciência obscuro que bloqueia a luz do próprio coração?).
Você é bem inteligente e sabe o motivo que me levou a escrever para você.
Tudo isso que estou lhe dizendo você sabe muito bem. E sabe da amizade e admiração que tenho por você. Mas, levando em conta a pressão familiar que você está passando no momento e que muitos de seus conhecidos devem estar repetindo de forma automática e sem sentimentos profundos o indefectível "meus pêsames" (e se você aceitar tantos pêsames ficará bem pesadão mesmo), lembrei-me de tantos papos sobre imortalidade que tivemos em muitas noites aí no Rio de Janeiro, além de nossa mútua admiração pela imensidão sideral coalhada de estrelas. Você se lembra daquela expressão que um espírito me passou?: "As estrelinhas, os olhinhos de Deus piscando no espaço e avisando de que na casa do Pai há muitas moradas."
Compreendo bem o sofrimento que seus familiares estão passando no momento, mas fico pensando se você, com tanta informação e certeza íntima, está firme no timão de seu discernimento ou se está deixando as ondas de dor balançarem demais a embarcação de sua paz, levando-lhe perigosamente na direção dos rochedos enlutados com a ilusão da perda.
Não consigo imaginar o meu amigo de tantas coisas espiritualistas compartilhadas ao longo dos anos com os olhos avermelhados de tanto chorar pela morte de um pai que não morreu. Ou pensar em você vestido de preto e soturno, em lugar do seu habitual sorriso farto e das atitudes generosas para com todos.
Faça-me um grande favor: não venha com o papo de que você está triste porque seu pai morreu e que é natural que você expresse emoções como todo mundo. Isso é papo para quem não tem nem 10 % da certeza da imortalidade que eu sei que você tem dentro do coração. Isso vindo de alguém com seu nível de consciência das coisas parece ridículo e inverossímel. E o mais ridículo disso tudo: você sabe que seu pai não morreu!
Com o conhecimento espiritual que você tem por que é que você não está ajudando-o nesse instante de travessia dimensional? Toda a espiritualidade que você sempre demonstrou era só aparência? Na hora da prática você está sendo um fiasco espiritualista?
Você tem potencial para ajudar a ele e a toda a família nesse momento, pois é o único da casa que tem conhecimentos e gabarito suficiente para segurar as pontas e estabilizar a situação. Mas, se você posar de bebê chorão e ficar de luto junto com eles, quem é que vai fazer alguma coisa?
Outra coisa: se o seu pai estiver vendo-o agora, reconhecerá o próprio filho, normalmente cheio de alto astral, mas agora vergado e vestido de preto só porque alguém foi morar "do lado de lá"?
Tomara que ele dê uma risada daquelas quando ver o seu ridículo.
Se suas lágrimas fossem de amor e admiração pelo pai, seriam lágrimas de luz. E se no meio delas você estivesse pensando: "Meu velho descascou, caiu fora da carcaça. Essas lágrimas são de admiração por quem me ensinou tanto, são lágrimas espirituais de quem sabe que ele está vivo, são lágrimas de um grande amor, não são de dor e nem de egoísmo. São a expressão serena de um filho que acabou de ver o pai partir para o plano extrafísico e está quietinho aqui vibrando o melhor para ele no silêncio do coração, que canta e encanta sob a luz da espiritualidade que guia o discernimento e faz surgir aquela paz profunda."
Calculo que se alguém que não me conhece ler esses escritos, dirá com certeza: "Esse cara está sendo duro demais com você. Não deve ter sentimentos e nem está respeitando a sua dor nessa hora."
Pois é, imagine eu, espiritualista por estado de consciência, não por crença, dizendo para você, também espiritualista de consciência: "Cara, meus pêsames. Também estou de luto. Por que tem que ser assim? Agora ele vai para debaixo da terra e tudo acabou. Por que é que Deus leva embora as pessoas que nós amamos? Vou sentar aqui do seu lado e chorar junto essa perda irreparável. Depois, vou encher a cara para esquecer. Mano, tudo isso é terrível e não vejo lógica nas coisas. Se nasceu, por que morrer? Está certo que ele fumava de montão, mas morrer de câncer só por isso? Não tem lógica não. Com tanta gente boa por aí e foi morrer logo o seu velho, que era tão legal? Acho que Deus é injusto e isso está errado. Cara, estou deprimido e não vejo mais brilho na vida. Eu o entendo e ficarei de luto com você, pois os amigos são para isso, não é mesmo? E, por favor, peça alguém para fechar aquelas cortinas. Está sol lá fora e esse brilho me incomoda e me faz lembrar de que lá na rua está cheio de gente andando e bem viva, enquanto seu velho está aqui mortão. Meus pêsames!"
Como seu amigo de muitos anos, o que devo fazer? Ficar deprimido junto com você por alguém que nem morreu, só saiu do corpo e foi morar no "andar de cima"? Ou talvez, escrever algo para despertá-lo da inércia e colocar esse potencial espiritual lindo em ação para ajudar os seus familiares nessa hora?
Você sabe que estarei vibrando espiritualmente por seu pai e por sua família. Sabe que se eu estivesse aí no Rio lhe daria um forte abraço em silêncio. Mas, também sabe que tudo o que estou lhe escrevendo aqui seria comunicado nesse abraço silencioso. Como não estou aí para o abraço, vai o e-mail mesmo.
Você tem muita sorte. Quantas pessoas perderam o pai quando elas eram bem pequenas? Cresceram sem a companhia e o apoio paternal*. Você teve a sorte de conviver com seu pai por muitos anos. Aliás, você mesmo é pai.
Perder alguém que já tem uma certa idade é previsível, muito embora ninguém goste de pensar nisso. Pior é alguém que perde uma criança, onde não houve tempo maior de convivência. E sei de pessoas que perderam filhos pequenos e não tinham metade do conhecimento espiritual que você tem e, no entanto, superaram a crise e estão cheias de vida e dispostas a tocarem o barco sem mágoas ou revoltas contra a existência.
Você sabe bem o que penso a respeito disso tudo. Entendo bem o impacto emocional que uma perda dessas causa em alguém e sei que é difícil olhar isso com olhos além do imediatismo dos sentidos e das emoções. Mas, o que não entendo é como é que as pessoas não reagem a isso e voltam a vida com dignidade e tesão de viver.
Não consigo entender como é que a passagem de alguém querido pode bloquear a luz infinita do coração? E como é que as pessoas não percebem a pobreza que se instala em suas almas e lhes rouba a dignidade de ser feliz?
Quer ver um exemplo disso (que sempre uso em palestras sobre o tema)?:
"Um casal tinha três filhos pequenos e em um acidente de carro um dos filhos desencarnou. Naturalmente, que o casal ficou abaladíssimo. A partir disso, viviam deprimidos e ficaram muito machucados com o fato. Não voltaram a viver e ainda ficavam irritados quando alguém lhes sugeria alguma atividade alegre. Parecia que a alegria alheia os incomodava profundamente. Passou-se um ano. Eles costumavam dizer: "Nossa vida acabou quando o nosso pequeno foi embora. Não há mais motivo para viver. Nada faz mais sentido para nós. Não gostamos de mais nada."
Então, um dia, os dois filhos que sobreviveram lhes perguntaram: "Se nada mais lhes dá motivo de viver e vocês vivem dizendo que não gostam de mais nada, o que será de nós que ficamos vivos e precisamos de vocês? Por causa da morte de nosso irmão, nós que ficamos vivos pagaremos o preço de não vermos mais os nossos pais sorrindo como antigamente? A morte só levou a ele, mas nós ficamos. Será que a morte de um prejudicará a nós dois que ficamos? É justo prejudicar alguém vivo só por que outro alguém foi embora? É justo dois irmãos vivos serem prejudicados pela morte de um irmão? E que amor é esse que só fala do morto e esquece os vivos que estão do lado? Ele se foi e nós ficamos. Não temos culpa alguma disso e exigimos vocês dois de volta a vida, pois nós precisamos de vocês aqui e agora."
Por sorte, esse casal despertou de sua inércia emocional e resolveu tocar a vida para educar os dois que ficaram. Voltaram a viver.
Não questiono o sentimento de perda e nem a dor que isso causa, pois são reações emocionais inerentes à condição de ser humano.
Só não entendo por que as pessoas não reagem a isso e por que ficam tão irritadas quando alguém fala disso?
Quem já não perdeu alguém querido ao longo da existência?
Assim como você agora, eu também já perdi pessoas queridas antes. Portanto, posso falar disso com prática e acho que todo mundo também.
Mas, não perdi a espiritualidade pela perda de alguém. Compreendi o processo, aceitei e toquei o barco da vida em frente.
Por isso, como amigo envio-lhe esse e-mail, não para consolá-lo, pois você tem nível e não precisa disso, mas para relembrá-lo do recado daquele espírito nosso amigo: "Olhe lá as estrelinhas, os olhinhos de Deus piscando no espaço. Elas são nossas irmãs. Lá de cima, elas olham o desenrolar da vida da triste humanidade que se arrasta na crosta da Terra. Elas velam em silêncio. Elas avisam do porvir imperecível. O homem veio delas e irá para elas após o término do seu ciclo carnal. Pois, dentro de cada ser arde o fogo das estrelas e a morte não pode apagá-lo. O que Deus acendeu, quem poderá apagar?"
O corpo cai e a estrela que o habitava parte de volta para casa. Irá juntar-se às outras estrelas do firmamento, suas irmãzinhas de brilho. Será novamente um dos olhinhos de Deus piscando no espaço e alertando em silêncio que ninguém morre e que todos são viajantes estelares no seio da eternidade."
Têm alguns amparadores aqui em volta me vendo escrever para você. Fico pensando se o fato de eu escrever-lhe isso tudo não tem um propósito maior que transcende o fato em si mesmo. Talvez, esses escritos não sejam apenas para você, mas para muitos outros cheios de potencial e espiritualidade teórica. Há outros filhos e pais por aí, não é mesmo? E quem sabe o momento de cada um?
Se eu sentir a intuição de passar esses escritos para outros, fique certo de que passarei.
Esse pessoal que está aqui faz parte da equipe extrafísica dos "Iniciados", aquele grupo de espíritos hindus que trabalham junto com o Ramatís (que você tanto admira). Pelo jeito, tem trabalho extrafísico daqui a pouco.
Fique tranqüilo. Se eu vir seu velho extrafisicamente não direi a ele que você baixou o nível só porque ele descascou. Aliás, se ele não estiver vendo, duvido que ele acredite. Pensará que é alguma sacanagem minha.
Fico por aqui. Chega de escrever.
"Quando o coração fala ao coração, não há mais nada a dizer."
PS: Um dos amparadores enviou-lhe um recado: "Quando o amor é grande a morte fica pequena e a vida mais brilhante."
PAZ E LUZ!
Um abraço do seu amigo carioca, que virou paulista por adoção!
- Wagner D. Borges -
São Paulo, 01 de dezembro de 2000 às 04:53h
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* Obviamente que refiro-me aos pais responsáveis e amorosos.
Texto <256><21/12/2000>
