306 - RELATO PROJETIVO DE BOZZANO
Há quatro anos que aconteceu o primeiro caso. Então eu ignorava que tal fosse possível, pois nenhuma idéia tinha dessas coisas.
Na primavera de 1926, durante um dia belo e quente, estava eu no cemitério, sentada na beira da sepultura de minha filhinha, que eu perdera recentemente. Achava-me deprimida e triste, mas gozava de boa saúde. Recordo-me bem de que, enquanto observava as abelhas que faziam a sua provisão de mel nas flores que eu havia plantado, senti que me tornava leve física e moralmente. Minha primeira impressão foi a de que as minhas pernas e os braços já não pesavam, depois o ventre e em seguida o peito. E de repente achei-me acima e ao lado de meu corpo, que eu via sentada na borda do túmulo. Contemplei o meu rosto fatigado e notei mesmo que o meu manto estava manchado de terra. Tinha a sensação de pairar sobre o meu corpo, em completa beatitude, e experimentava a sensação de um grande e luminoso prazer de viver, como se eu vivesse mil vidas ao mesmo tempo e de completa quietude.
Não podia mover-me e disso não sentia necessidade, mas podia ver, compreender e ter o sentimento de uma vida interior e ditosa. Meu corpo parecia um farrapo, alguma coisa abandonada e eu pensava: "Isto é a morte!" e, contudo, sentia o prazer de viver.
Vi o guarda do cemitério aproximar-se de meu corpo, tocá-lo, apalpá-lo, chamar-me e partir correndo. Mais tarde me disse que fora chamar a ambulância, pois as minhas mãos e os pés começavam a esfriar.
Quando o vi a correr, compreendi que ele me julgava morta e repentinamente fiquei aterrorizada. "Isto é a morte!, pensei eu. Como irá meu marido viver sem mim?"
Mas eu me sentia tão cheia de vida, que disse a mim mesma: "É preciso que eu volte e entrar no meu corpo". Tentei reentrar nele, temia não poder consegui-lo.
Comecei por sentir o peso, em seguida as dores, as pequenas indisposições às quais estamos de tal modo habituados, que quase nos passam despercebidas. Logo depois veio a tristeza e uma vontade de chorar. Pouco a pouco fui recuperando meu corpo.
Há duas semanas reproduziu-se o mesmo fenômeno.
Certa tarde eu lia um livro jocoso e as farsas estúpidas faziam-me rir sozinha. De repente tive a impressão de abandonar meu corpo e o percebi deitado com o livro nas mãos, ao mesmo tempo que me senti no ar, bem ditosa, com um sentimento de vida interior. Olhava meu corpo, achava-o bem disposto e disse para mim mesma: "É pena morrer assim tão jovem!". Aproximei-me de meu corpo estendido e procurei reentrar nele. Logo senti que ele me absorvia como uma folha de papel absorvente ou como uma esponja absorvendo a água. Ai meu marido tocou a campainha e eu me levantei para lhe abrir a porta."
(Relato projetivo extraído do livro "Desdobramento - Fenômenos de Bilocação"; Ernesto Bozzano. Ed. Calvário (1969); (paginas 39-40).*
Notas de Wagner D. Borges:
- Na década de 1980 saiu um outra edição desse livro pela Editora Correio Fraterno do ABC com o título: "Fenômenos de Bilocação - Desdobramento".
O italiano Ernesto Bozzano (foi um dos maiores pesquisadores de fenômenos parapsíquicos e espirituais do século 20. Vários de seus livros abordaram o tema das projeções da consciência, principalmente estes: "Metapsíquica Humana"; FEB (há um capítulo específico sobre projeção), "Animismo ou Espiritismo?"; FEB (há um capítulo excelente sobre a projeção) e "Comunicações Mediunicas Entre Vivos"; Edicel (é um dos melhores livros dele).
Um de seus livros é um clássico sobre vida após a morte até hoje: "A Crise da Morte"; FEB. Há um outro bem interessante sobre a imortalidade dos animais: "Os Animais Tem Alma?";ECO.
É dele também essas duas obras fantásticas permeadas pelos seus argumentos sempre sensatos e ponderados: "Enigmas da Psicometria"; FEB e "Xenoglossia"; FEB (livro sobre comunicações interdimensionais passadas em línguas estranhas ao receptor. Há duas experiências relatadas por dois projetores famosos da primeira metade do século 20: Vincent Newton Turvey - autor do primeiro livro de relatos de projeção do século 20: "The Begnings of Seership" - 1905, Inglaterra - e William Dudley Pelley, escritor americano que no início da década de 1930 teve um projeção incrível, narrada no seu livrinho "Sete Minutos na Eternidade").
Muitos pesquisadores modernos acham que os livros do Bozzano, escritos na primeira metade do século 20, estão obsoletos. Isso não é verdadeiro, pois as interpretações podem ser mais modernas hoje, mas as características dos relatos projetivos ainda são iguais em toda parte. As sensações de catalepsia, estado vibracional, ballonement (dilatação da aura), presença de amparadores e tantas outras coisas referentes ao tema abundam nas obras de Bozzano.
Oportunamente extrairei alguns relatos de algumas de suas obras e postarei aqui no site para análise dos leitores.
Embora a maioria dos livros do Bozzano sejam editados até hoje pela editora da Federação Espírita Brasileira (FEB), ele não era espírita e sua abordagem era bastante universalista.
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Texto <306><04/11/2001>
