342 - AMOR, O PAI-MÃE DE TODOS II (Ou o Todo Está em Tudo!)

Incomensurável, não pode ser percebido pelos sentidos limitados nem pelas mentes tacanhas. Ironicamente, o intelecto não consegue entendê-lo. A palavra não expressa sua virtude. Nenhum templo pode contê-lo. Nenhum ritual pode capturá-lo. Nenhum sacrifício ou amuleto retém seu poder infinito. Não está impresso em livro algum, por isso não pode ser lido ou memorizado. Como coisas relativas poderão expressar o Amor Absoluto? Que ser humano relativo poderá arrogar-se como detentor do Absoluto? O Todo está em tudo! Ele é! E só Ele é que sabe o que é! Só o Absoluto compreende o Absoluto.

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Certa vez, alguém convidou o mestre iogue Shankara para participar de um antigo ritual védico em volta de uma fogueira. Ele riu e disse: "Em lugar de acender uma fogueira apenas por condicionamento religioso, que tal acender a fogueira do discernimento dentro de seu coração e queimar todas as dores emocionais que lhe causam as dificuldades? O Supremo habita a tudo. Ele está dançando nas chamas da fogueira, certamente. No entanto, Ele também dança em seu coração. Dançe com Ele."

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Uma árvore amiga disse-me: "O vento passou ainda agora cantando o Supremo. O relâmpago, o trovão e a chuva também falaram Dele. A terra disse-me que é Sua filha e as rochas estão enamoradas Dele. E você, o que me diz?"

Nada lhe respondi, apenas a abracei. Senti os meus pés ligados Mãe Terra e ergui os meus olhos para o céu. De coração aberto, como faria um iniciado celta antigo ou um xamã responsável, sussurei-lhe: "Querida, como posso dizer-lhe algo sobre o Todo? Meus conhecimentos são relativos e minhas palavras são finitas. O que posso dizer-lhe é que O Amo, mesmo sem nada entender. Sinto-o, mesmo sem saber de que maneira. De forma limitada, posso dizer-lhe que ele corre como o vento e é suave como a brisa; brilha no relâmpago, mas também está nas trevas da noite; estremece a atmosfera no trovão, mas é terno no abrir das pétalas das flores. É O Sol oculto que sustenta zilhões de sóis na imensidão sideral, mas também viaja nos plácidos raios da lua. Amiga, Ele é a energia que está em sua seiva vital, em seus frutos, em suas folhas, nos pássaros que pousam em seus galhos e até mesmo em sua sombra. É o mesmo que está aqui abraçado com nós dois, e que não entendo, mas que o meu coração compreende e aceita. Ele, O Supremo, Aquele que gera todos os universos e seres e que é capaz de abraçar você e eu e dizer no silêncio de nossas almas: SOMOS TODOS UM SÓ!"

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O sábio Kabir viu um devoto ajoelhado na rua exclamando em altos brados: - "Deus, Deus, Deus...escutai-me, Ó Senhor. Aqui é vosso servo clamando pela tua misericódia." Então, ele agachou-se perto do homem e disse-lhe baixinho: - "Irmão, por que tu gritas tanto? Por acaso o Senhor é surdo? Não sabes tu que Ele escuta até mesmo os teus pensamentos mais secretos? Para de gritar e enche o teu coração de amor."

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Ensinamento celta: O universo inteiro está permeado por uma Presença. Aceite-a.

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PS:
Nesses escritos relativos há uma coisa absoluta: a minha incapacidade de colocar nas palavras os sutis sentimentos da alma. Portanto, peço ao leitor que não ligue muito para o que aqui está escrito, mas que sinta o perfume sutil que está além das palavras. Esse perfume do invisível que inspira tanto e que muitas vezes vem visitar-me num abraço silencioso. Não posso ir junto com o texto e abraçar a cada leitor da mesma forma que fiz com a amiga árvore. Mas posso escrever essas linhas relativas sabendo que o Absoluto está nelas, pois Ele está em tudo. Somando os ensinamentos de Kabir e Shankara, posso dizer que "não é preciso gritar para chamar o Supremo, pois Ele já está dançando dentro de cada coração." Relativas são nossas percepções, absoluta é a dança do Supremo em nós. E as palavras aqui alinhavadas não são capazes de revelar isso. No entanto, o perfume sutil é bem legal...

Paz e Luz.

- Wagner Borges -
(ser humano com qualidades e defeitos, 40 anos de estrada, a maior parte deles trabalhando com essa menina chamada de Espiritualidade e maravilhando-se cada vez mais por isso)

São Paulo, 25 de maio de 2002, às 05h28min

Esses escritos surgiram enquanto eu montava uma aula para o curso "Tambores Celtas" (material inspirado na sabedoria espiritual do povo celta). Na calada da madrugada, posso dizer com sinceridade que o ambiente do meu apartamento está cheio de luzes clarinhas. E o melhor: essas luzes também estão clarinhas em meus chacras, em meu rosto e em meus olhos. Essa é a maior riqueza que o Supremo emprestou-me nessa vida: essa tal de Espiritualidade bem clarinha. É o único talento espiritual que possuo (ou melhor dizendo, sou possuído por ele.) Por isso, não sei escrever ou falar de catástrofes, julgamentos cósmicos da humanidade, resgates de grupos egoístas que se acham escolhidos celestes e coisas do gênero. Nada sei sobre essas coisas. Também não sei o motivo de tantas pessoas se permitirem serem corroídas pelos "cupins da dúvida" sobre a sua própria espiritualidade e sobre a imortalidade que pulsa dentro de suas almas. Sendo a espiritualidade um estado de consciência interno e não uma doutrina, não entendo porque muitos titubeam no trato com algo que faz parte de seu próprio ser e que não é passível de ser corrompido pelas pressões externas dos que ainda estão procurando-a fora de si mesmos. O que sei com certeza é da minha incapacidade em expressar em palavras a imensa alegria de ser visitado e possuído por um perfume do invisível que inspira e ordena a escrever, mesmo que de forma relativa, sobre o Supremo** que dança dentro dos corações.

* O primeiro texto "Amor, O Pai-Mãe de Todos" está em nossa seção de textos projetivos e espiritualistas. É o Texto 336.
** O Todo ou o Supremo é uma forma esotérica de referir-se ao Poder Maior Que Governa a Existência, O Amor Que Gera a Vida, O Grande Arquiteto do Universo, O Pai-Mãe de todos, Brahman, Deus, Alá, Jeová, Mãe Divina, Tupi, Zambi, Papai do Céu ou qualquer outra designação relativa que os homens criarem para referir-se ao Absoluto que suas mentes não compreendem.

Texto <342><21/06/2002>