362 - UMA VOCAÇÃO ESPONTÂNEA


´Você se sacrifica a fim de se tornar um vidente-curandeiro. Você o será, chegado o momento. Você vai ensinar aqueles que, por sua vez, se tornarão xamãs. Somos o povo dos pássaros, o povo alado, as corujas e as águias. Somos uma nação, e você será nosso irmão. Você nunca matará nem ferirá nenhum dos nossos. Pode esperar ser compreendido por nós cada vez que sobre esta colina exercer seu dom de vidência. Você aprenderá os segredos das ervas e das raízes e curará seus semelhantes. Em troca, nada pedirá. A vida de um homem é breve. Que a sua seja nobre e fecunda.´

Percebi que essas vozes me faziam bem, e lentamente o terror se retirou de mim. Tinha perdido a noção do tempo... A seguir distingui uma forma à minha frente. Levantei-me na escuridão... Reconheci meu bisavô, Tahca Ushte, Cervo Coxo. Podia ver o sangue escorrendo de seu peito, no ponto onde um soldado branco o ferira e matara. Compreendi que meu bisavô desejava que eu adotasse seu nome. Senti uma alegria indizível...

Nós, sioux, acreditamos que existe, no mais profundo do nosso ser, alguma coisa que nos governa, alguma coisa quase semelhante a uma pessoa. Chamamo-lo nagi, outros dizem alma, espírito ou essência. Não podemos nem vê-lo, nem senti-lo, nem saboreá-lo, mas aquela vez, na colina somente aquela vez - soube que nagi estava em mim. Senti-o espalhar-se pelo meu corpo, inundar-me. Isso eu não posso descrever, mas fui penetrado até o mais íntimo do meu ser. A partir daí, tinha certeza de que me tornaria um wicasa wakan, um vidente-curandeiro."

(De mémoire indienne, Tahca Ushte & Richard Erdoes)
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Texto <362><30/08/2002>