487 - DESPERTAI
Vem a noite, que é a tua morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorde.
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não vestes, não tens nada:
Tens só o teu corpo que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
Neófito, não há morte!
- Fernando Pessoa -
Texto <487><12/12/2003>
Texto <525><01/06/2004>
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorde.
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não vestes, não tens nada:
Tens só o teu corpo que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
Neófito, não há morte!
- Fernando Pessoa -
Texto <487><12/12/2003>
Texto <525><01/06/2004>
