492 - CARTA ESPIRITUALISTA

Espero que neste momento você esteja firme, de pé, irradiando beleza por todos os poros. Desejo que não esteja vestindo o luto como uma segunda pele.

Torço para que, espiritualista que você é, não esteja encharcando sua vida com o choro desnecessário e confuso.

Lembre-se de que o desequilíbrio emocional e a tristeza não permitem que haja a cicatrização das feridas internas da alma.

Honre a memória do seu marido com o que ele gostaria que você fizesse, ou seja: toque a vida e eduque sua filha!

Recupere o seu sorriso e veja o lado positivo das coisas. Seu marido descobriu na prática o segredo da vida após a morte. Pense no que ele deve estar aprendendo agora, neste mesmo instante, e lembre-se da cuca boa que ele tem.

A vida é uma constante oscilação interplanos. Alguns vão (seu marido), e outros vêm (sua filha). Com o passar do tempo outros mais entrarão nessa dança evolutiva chamada nascimento, morte e renascimento, inclusive você mesma (e eu também).

O importante é aprender com essa oscilação.

Ninguém morre mesmo, só trocamos de plano vibracional. Devíamos ter bastante certeza disso. Já desencarnamos tantas vezes em outras vidas!

É muito estranho que o ser humano ainda não tenha se acostumado com a idéia de que aquilo que nasce, um dia fatalmente chegará ao fim de seu ciclo no intrafísico.

A maioria das pessoas não admite falar sobre a morte, mas ela está por aí, é companheira inseparável de tudo o que está vivo neste plano. Aliás, a coisa mais certa na vida é a morte, pois só desencarna quem está vivo encarnado.

Não é um paradoxo interessante saber que para morrer basta apenas nascer?

Cada segundo que vivemos, cada golfada de ar que respiramos é um passo para a morte, pois, enquanto vivemos, vamos envelhecendo fisicamente e nos aproximando do confronto derradeiro com ela.

Para alguns ela aparece cedo, para outros ela não tem pressa. De qualquer maneira, cedo ou tarde, naturalmente ou por acidente, suave ou violenta, ela marcará sua presença.

Morrer é inexorável. Se me permite fazer uma redundância, posso dizer que a morte é a “certeza fatal” da vida.

Nada podemos fazer quanto a isso. É um ciclo imposto pela natureza e devemos conviver com ele da mesma forma que convivemos com outros ciclos naturais, aos quais estamos submetidos.

Porém, somos espíritos imortais e já sabemos disso. Portanto, em lugar de só chorar e sofrer com a perda temporária, que tal enfrentarmos o nosso apego de frente e trabalharmos com o discernimento espiritual em cima?

No íntimo de cada um existe a certeza da imortalidade do próprio espírito. E no coração mora a intuição. É hora de deixá-la guiar os seus passos. Entretanto, para que ela possa fluir livremente é necessário que haja calma nos pensamentos. Uma mente angustiada não ouve a intuição.

É bom que saiba que o amor e amizade real são imperecíveis, nem a morte pode tocá-los.

O seu marido continua amando você e sua filha. Respeite o momento dele e lhe dê um tempinho para a adaptação ao seu novo meio-ambiente. Amigos reais é o que não lhe falta por lá.

Não fique com ciúmes, mas talvez agora ele esteja conversando com antigas namoradas e esposas de outras vidas (garanto que você não tinha pensado nisso, não é?).

Leve em conta o meio-ambiente do plano espiritual, a riqueza de cores e o contato com os espíritos bacanas, e imagine se o seu marido já não estará aproveitando a oportunidade, enquanto você está chorando à toa.

Enquanto a maioria dos seres humanos se pergunta o que haverá após a morte, o seu companheiro já sabe.

Em breve estarei em sua cidade para realizar alguns cursos e palestras. Quando eu chegar, espero lhe rever assim:

- Com muito brilho nos olhos.
- Com muita energia sadia na aura.
- Com muito sentimento legal em cada ato.
- Com muita inteligência nos pensamentos.
- Com a consciência enriquecida pela experiência.

Não se esqueça de tudo aquilo que você estuda espiritualmente. É hora de colocar em prática o que você sabe. Como diz o Vidigal, um dos espíritos da Cia do Amor*, “fique firme e dê uma banana para a morte. A vida agradecerá!”

Um abraço.

- Wagner Borges -
São Paulo, 22 de setembro de 1991.

- Nota (escrita em janeiro de 2004): Essa carta foi enviada para uma amiga que perdeu o marido muito jovem, e isso enquanto estava grávida de sua primeira filha, que ele não chegou a conhecer aqui nesse plano físico. Um dia após a sua mudança para o “andar de cima”, eu vi o ambiente extrafísico onde ele estava e suas condições conscienciais. Ele ficou bem, e cerca de alguns meses depois apareceu não só para mim, mas também para outros médiuns amigos, sempre de bom humor.
A minha amiga retomou sua vida e seguiu em frente na lida da vida, como deve ser... e continua estudando os temas espirituais, além de criar uma menina, hoje com 12 anos de idade.
Perder alguém dói muito. Mas perder a capacidade de reação para voltar a viver faz essa dor doer muito mais. Por isso toco com constância na questão da sobrevivência do espírito além da ilusão da morte. É a forma que tenho de tentar ajudar às pessoas que estão sofrendo pela perda do ente-querido.
Não tenho como dar “pêsames” para ninguém, só sei que os espíritos se mandam mesmo e continuam vivos em outros planos vibracionais.
E sei também da imensa responsabilidade de falar ou escrever sobre isso, sempre objetivando levantar o clima psicofísico das pessoas, como manda o discernimento espiritual que guia os meus passos na vida.
Em lugar dos famigerados “pêsames”, esclarecimento espiritual direto.
Em lugar de luto, luz em cima.
Em lugar de lamentações que não adiantam de nada, ponderações baseadas na Espiritualidade.
Em lugar de fugir da vida e só chorar, reação sadia para superar a perda e voltar a viver com dignidade.
E em lugar de encher o coração com climas soturnos, se tocar, dar um banho de luz em si mesmo e fazer valer a pena a chance de ter vindo viver por um tempo de aprendizado na Terra, que independe de se estar ou não com alguém.
Vida é vida, não se explica, só se sente e vive!
Quem passou, passou... e vive!
Quem ficou, ficou... e vive!
Esse é o jogo da vida, seja na Terra ou no Espaço, é preciso viver e aprender.
Quem é vivo, vive, com corpo ou sem corpo, pois essa é a natureza do espírito.
Seja a vida intrafísica ou extrafísica, viva a vida!
Como diz o espírito Vidigal, “dê uma banana para a morte!” (e para os pêsames também).

Texto <492><06/02/2004>