56 - PAI

Pai,
no momento em que acessava a Internet, me deparei com uma espécie de propaganda, aonde estava escrito "Escreva a história de seu pai".

Automaticamente, parei tudo que estava fazendo e minha mente me levou a um momento derradeiro da minha infância, aonde eu, sentado ao redor de meus colegas de aula, fazia um dos depoimentos mais fervorosos que já ouvi alguém dizer: a história do meu grande pai, que de filho de pescador passou a industrial da cidade grande. Detalhes como os tamancos para ir à missa aos domingos, e os jornais vendidos pela manhã me remontam um passado que distante me observa enquanto que aos prantos tento lhe passar esta mensagem: o tempo que eu o idolatrava.

Nesta fase da infância, aonde a nossa noção das pessoas e do mundo se restringe basicamente aos nossos colegas de colégio e a nossa família, fazíamos uma imagem perfeita desse homem que nos trouxe ao mundo. Forte, corajoso, inteligente, etc. etc. etc.. O arquétipo de pai é montado com a isenção completa do espírito crítico, que vem como uma avalanche na adolescência.

Naquele ponto, passamos a acreditar que tudo aquilo que ouvimos era pura bobagem - eu não acredito que mentiram pra mim, ele tem estas, aquelas e aquelas falhas, todas à mostra, como uma flor desabrochando e se mostrando exatamente como foi criada.

Passada a fase de indignação, começamos a sentir, gradativamente, que aquela pessoa (assim como nós mesmos somos, ao conhecermos nossas limitações) é um simples mortal, passível de tomar atitudes brilhantes e ao mesmo tempo cometer erros crassos. Então vem chegando o momento que é como se pudéssemos olhar as pessoas através de um raio-x. TUDO é exposto, até mesmo a mais mínima falha e o mais completo dom, basta então que nós, como expectadores, ofertemos mais atenção ao item positivo ou ao negativo.

Tenho passado estes últimos anos distante da família, eu sei. Creio que os últimos acontecimentos são justamente para me aproximar mais da família, para voltarmos a conviver juntos, como se nos preparássemos para algo maior.

Pois é agora, dentre este turbilhão de emoções que avassala meu interior que começo a perceber o quão egoístas somos às vezes. Quando não partilhamos de um simples momento de alegria, por estarmos tão fechados para ela que não a enxergamos.

Há algum tempo atrás, em meados de maio, participei de um seminário sobre neuro-lingüística. A grande verdade é que o palestrante falou 10% da palestra sobre neuro-lingüística. O resto foi sobre perdão, amor, amizade e fé. Num exercício que durou mais de 20 minutos, fechamos nossos olhos e demos as mãos para a outra pessoa que estava ao nosso lado. Imaginamos, gradativamente, nós quando pequenos, nossa mãe, nossos amigos e nosso pai, um a um, se encarando e pedindo humildemente perdão por tudo que aconteceu. Por aqueles momentos em que não houve compreensão, ou paciência, ou seja lá o que for. Por aqueles momentos em que tudo deveria ter sido diferente. ME PERDOA. Só isto. Foi um dos momentos de maior libertação de toda minha vida. Eu me vi livre de estigmas que me perseguiam há muitos anos (talvez antes dessa existência). Depois da palestra fomos passear um pouco e nos divertir também. Desde aquele momento ao final da palestra, estava com vontade de chegar em casa e abraçar vocês dois, perguntar como se sentiam, dizer que os amava e tudo mais. Só que ao chegar, vocês estavam irritados, brigando, discutindo. Me parecia que a distância tinha aumentado. Dei boa noite e saí. Que pena, um momento tão importante para se eliminarem as mágoas e eu desperdicei.

Talvez agora esteja conseguindo fazer isto por escrito, talvez nem lhe entregue isto no dia que tem por direito, por ter que trabalhar - outro problema que nos afasta, a necessidade do dinheiro.

Estou aos prantos. Então volto ao início da conversa. Cadê o homem forte, corajoso, praticamente invulnerável - meu super herói que conheci há tanto tempo? Tenho certeza que não foi só a idade que o afastou de cena, mas principalmente o fato de que não precisa ser porcaria nenhuma de super herói. Só precisa ser humano. SER HUMANO. Como é difícil lhe dizer finalmente que não tem que provar pra ninguém, e nem pra si mesmo, que é mais forte, mais inteligente, tem mais memória, não sente dor, não gripa, não chora. Não chora. Se você me visse agora. Tô um nenê, aos prantos. Me perdoa. Lhe perdôa. Lhe perdôo. Deixa fluir, não precisamos de prova da sua sabedoria. Nós somos a prova da sua sabedoria. Penso agora que os estereótipos de cidadão modelo são justamente o oposto ao que fomos ensinados. Seja diferente. Seja mais esperto, mais inteligente, mais astuto, mais corajoso. Putz, têm ocasiões que dá medo, têm algumas coisas que raciocino mais lentamente que outras pessoas, mas afinal, é pra ser perfeito? Não. É pra ser humano. SER HUMANO. Demorei tanto tempo pra perceber que eu não era capaz de tudo. Até demais. Sou limitado, sim. Por isto estou aqui neste planeta. Para crescer, evoluir, expandir. Se fosse perfeito, nem vinha. E assim todos nós.

O TAO diz que a grande e forte árvore se quebra ao meio na tempestade. A grama, por ser flexível, se adapta as correntes de vento, e permanece. Devemos ser como a grama, deixar o vento nos guiar. Estarmos serenos para que quando as oportunidades surgirem, estarmos tranqüilos para discernir e aproveitar os melhores frutos que o Supremo Arquiteto do Universo elabora para nós.

Acho que tenho um problema de fé, as vezes não acredito muito nas coisas, por isso, estou arranjando formas de trabalhar melhor isto. Mas todas elas vêm de minha própria iniciativa, não posso esperar uma fórmula mágica para resolver instantaneamente. Por isso precisamos meditar, refletir, sentir o que o vento tem pra nos dizer, que a força do pensamento flua sobre nossos seres e sejamos compelidos a obter através da bondade divina os frutos dos quais necessitamos para a crença absoluta no amor de Deus. E façamos disto a mola propulsora para espalharmos entre os homens esta chama de bondade e paz.

Isto é tudo o que eu tinha pra lhe dizer, acrescentando que eu o amo profundamente e que nosso elo de ligação transcende nosso contato físico (matéria). A qualquer distância estaremos interligados. Todos nós. Que a paz de Deus esteja em nossos corações. Te amo, paizão.
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Texto <56><04/10/1998>

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