615 - RELATO PROJETIVO DE BOZZANO II

Fiquei logo cego e assim permaneci, porém as trevas eternas que me envolviam naquele momento sofreram uma trégua súbita, quando uma voz murmurou em mim:

‘A morte se aproxima. Queres vir conosco?’

O véu das trevas parecia descer lentamente e então tive a sensação do espaço. Além havia trevas espessas. Invadiu-me inefável sentimento de beatitude, de paz. Nada era comparável àquela indescritível felicidade! Em certo momento, olhando no vácuo, vi o meu próprio corpo deitado em um buraco de obús, com o sangue a correr como de uma fonte. Estava, pois, morto e aquele era o meu cadáver, mas como me sentia feliz!

Tive, todavia, a impressão de que a voz que eu ouvira esperava por uma resposta e, empregando um supremo esforço, exclamei não sei como:

‘O meu tempo ainda não está cumprido. Não quero morrer.’

De novo subiu e me envolveu o véu de trevas. Meu corpo fez um movimento. Fui eu quem o provocou. Eu voltava à vida.

Descrevo escrupulosamente as minhas sensações de então. Acrescento que eu não estava inconsciente quando me aconteceu o que descrevo, nem mesmo perdi a consciência por alguns minutos e, quando se produziu a coisa, compreendi quão diferente é a verdadeira inconsciência do estado em que me encontrava na ocasião.

Quanto ao acontecimento descrito, que o chame alucinação quem quiser ou bem uma ilusão do cérebro. Pouco me importa e eu não pretendo influenciar o leitor a respeito, limitando-me a colocar no papel as minhas impressões daquele momento solene. Quanto às minhas convicções pessoais, eu as conservo para mim, todavia, ei-las aqui: De qualquer maneira que se interprete o meu caso, para mim não existe mais o mistério da morte, portanto não a temo mais.”


Como se vê, todos os que passaram pela solene experiência de que tratei relataram a inabalável convicção de haverem assistido à separação de espírito e corpo e, em conseqüência, adquiriram esta outra certeza inabalável de que o espírito sobrevive à morte do corpo. Do exposto, vê-se que é racional se mostrem eles intransigentes ante as afirmações negativas dos representantes da ciência oficial que, nunca tendo realizado a grande aventura de se encontrarem vivos fora do corpo, com a sua própria personalidade consciente, perceptiva, separadas do corpo e perto dele, não se acham em condições de formar uma concepção clara sobre o valor prático e positivo de uma convicção fundada nessa experiência.


(Relato projetivo extraído do livro "Desdobramento - Fenômenos de Bilocação" - Ernesto Bozzano. Ed. Calvário** – 1969).

- Notas de Wagner Borges:

* O outro relato projetivo de Bozzano está postado na seção de textos periódicos enviados semanalmente pelo site. É o texto 306.

** Na década de 1980 saiu uma outra edição desse livro pela Editora Correio Fraterno do ABC, com o título: "Fenômenos de Bilocação - Desdobramento".

O italiano Ernesto Bozzano foi um dos maiores pesquisadores de fenômenos parapsíquicos e espirituais do século 20. Vários de seus livros abordaram o tema das projeções da consciência, principalmente estes: "Metapsíquica Humana"; FEB (há um capítulo específico sobre projeção), "Animismo ou Espiritismo?"; FEB (há um capítulo excelente sobre a projeção) e "Comunicações Mediunicas Entre Vivos"; Edicel (é um dos melhores livros dele). Um de seus livros é um clássico sobre vida após a morte até hoje: "A Crise da Morte"; FEB. Há um outro bem interessante sobre a imortalidade dos animais: "Os Animais Tem Alma?"; ECO.

É dele também essas duas obras fantásticas permeadas pelos seus argumentos, sempre sensatos e ponderados: "Enigmas da Psicometria"; FEB, e "Xenoglossia"; FEB (livro sobre comunicações interdimensionais passadas em línguas estranhas ao receptor. Há duas experiências relatadas por dois projetores famosos da primeira metade do século 20: Vincent Newton Turvey - autor do primeiro livro de relatos de projeção do século 20: "The Begnings of Seership" - 1905, Inglaterra - e William Dudley Pelley, escritor americano que no início da década de 1930 teve um projeção incrível, narrada no seu livrinho "Sete Minutos na Eternidade").

Muitos pesquisadores modernos acham que os livros do Bozzano, escritos na primeira metade do século 20, estão obsoletos. Isso não é verdadeiro, pois as interpretações podem ser mais modernas hoje, mas as características dos relatos projetivos ainda são iguais em toda parte. As sensações de catalepsia projetiva (paralisia), estado vibracional, ballonement (dilatação da aura), presença de amparadores e tantas outras coisas referentes ao tema abundam nas obras de Bozzano.

Embora a maioria dos livros do Bozzano sejam editados até hoje pela editora da Federação Espírita Brasileira (FEB), ele não era espírita e sua abordagem era bastante universalista.

Texto <615><10/06/2005>