737 - MOKSHA

Vejo um olho à minha frente. Mas não o vejo frontalmente. Vejo-o de lado.
Há o reflexo de uma imagem brilhando nele, mas não dá para ver o que é.
Então, sinto uma atmosfera de amor nesse brilho. Sei que é o olho de alguém muito especial.
Há uma doçura emanando de sua pupila de cor azeviche-brilhante.
Foco a atenção dentro do reflexo da imagem e vejo um céu azul no fundo.
Abaixo dele, flutuam formações energéticas sobre elevadas montanhas nevadas.
E, mais abaixo, flashes de corpos de luz e portais energéticos circulares.
Tudo isso permeado por energias azuladas-esverdeadas suaves; luz serena no ar!
Por intuição, sei que se trata de um ambiente extrafísico superior refletido ali.
Sim, isso tudo dentro do reflexo do olho, que continuo vendo só pela lateral esquerda dele.
Só olho, sem questionar nada. Estou tranqüilo. Sei que há uma mensagem no ar... De alguma maneira, estou recebendo-a, mas não pela mente racional.
Parece que aquela parte minha interna está acessando intuitivamente alguma coisa dali.
A essa altura, percebo que o dono desse olho é uma consciência extrafísica avançada. Ele está sintonizado em vários planos ao mesmo tempo (e eu só vejo o reflexo disso).
Também sinto que há outras consciências evoluídas envolvidas invisivelmente no lance. Há uma comunicação sutil entre elas. Nada escuto, mas sinto. E algo interno me diz: “Libertação! Presente espiritual. Jorro sereno de luz. Paz perene. Onda de amor.”
E, enfim, eu compreendo: um ser espiritual está passando para o plano da pura luz. Alguém muito especial está indo para o plano da mente cósmica, morar no plano mental. Ele está deixando o corpo espiritual, que se dissolverá rapidamente na luz do astral. É chegada sua hora de se manifestar apenas como consciência pura, sem vestimenta psíquica alguma.
Mas, antes de ir, ele quer deixar mensagens silenciosas e imagens edificantes para todos.
O seu olho é como um arquivo cheio de imagens e cores contendo toques de sabedoria. Enquanto o seu processo transicional rola, ele deixa o seu arquivo de luz disponível. Para que outros peguem uma carona espiritual em suas vibrações beatíficas.
E que carona! Vejo coisas refletidas naquele olho que nem tenho como descrever. Luzes, portais, seres diáfanos, miríades de cores e coisas que sequer entendo.
Mas tem uma parte minha que sabe! E ela está aproveitando o momento, em sintonia... Sinto uma atmosfera de “serenidade-amor-plenitude-contentamento-sabedoria-luz”.
Também sinto que outros estão pegando a mesma carona espiritual dele pelo mundo. E tudo isso emana apenas do reflexo de um olho de alguém realizado na luz.
Se eu visse tudo dele, com certeza não agüentaria – “é muita areia para o meu caminhão!”
Talvez, até por isso, eu não tenha sintonizado o lance antes, desde ontem à tarde.
Ou seja, de forma inconsciente, eu temia a magnitude dessa emancipação espiritual. Temia entrar na luz cósmica e não voltar ao “eu” simples do aqui e agora – o ser humano. Entretanto, sou eu mesmo, o cara simples, serenamente abençoado pela luz dessa libertação.
Ele singra a pura luz lá em cima; e, no aqui e agora, eu fico feliz só de estar na carona dele. Que presente, meu Deus! A libertação dele infunde luz em tantos! Que felicidade serena!
E eu agradeço àquelas consciências serenas e anônimas, que me abriram tal condição.
Nesse momento, não sei mais o que dizer; as palavras fogem, e só quero ficar quieto. Penso na Janete, que está dormindo no quarto ao lado, e também agradeço a ela.
Ela não sabe, mas o apartamento dela está cheio de luz serena; a luz de uma emancipação!
Na aparente solidão da noite, eu estou acompanhado por essa luz, na qual peguei carona. O cansaço do trabalho se foi; ficou essa alegria serena, essa quietude contente.
E uma parte minha, interna, está realizada também. Eu e ela somos um, serenamente...
No reflexo do olho do ser liberto, eu vi a bem-aventurança que os antigos rishis falavam. No centro da noite, um sol espiritual brilhou no zênite da consciência cósmica.
E eu, o cara simples, o ser humano, me apaixonei pela luz serena, sem me perder nela...
Então, lembro-me da homenagem que Shankara um dia fez para os seres emancipados: “Há almas boas, tranqüilas e magnânimas, que, como a primavera fazem o bem a todos. São almas livres, que ajudam a todos na travessia das existências seriadas. E fazem isso, apenas por sua própria bondade, sem nada esperar. E são elas que ensinam que há uma luz maior do que bilhões de sóis juntos, que é a essência da alma; essa é a luz que mora no coração.”

P.S.: My Lord, agora eu sei porque pensei tanto em Você.
Eu precisava de suporte espiritual para agüentar a intensidade da luz que vi.
E Você é o suporte de todos os seres.
Como ensinavam os rishis da antiga Índia:
“Brahman é o fim da saudade do amor!”
Ou, como ensinavam os mestres herméticos da antiguidade:
“O Inefável é invisível aos olhos da carne, mas é visível à inteligência e ao coração.”
Ou, como ensinavam Jesus e Krishna, simplesmente “é o Amor que está em tudo!”
My Lord, mais um vez, muito obrigado, por tudo.

(Esses escritos são dedicados a Janete, Cláudia Beck, Dalton Roque, Rafael Cury, Atílio Loss e Carlos Yamamoto, meus amigos de Curitiba, que sempre me recebem muito bem aqui na bela e progressista capital do Paraná).

Paz e Luz.

Curitiba, 05 de outubro de 2006.

* Moksha (do sânscrito) – libertação espiritual.
* Rishis (do sânscrito) - sábios espirituais; mentores espirituais dos Upanishads.
* Brahman (do sânscrito) – O Absoluto; O Supremo; O Grande Arquiteto Do Universo; Deus; O Todo que está em tudo!
* My Lord (do inglês) – “Meu Senhor!”
* Enquanto eu digitava essas linhas, estava rolando aqui no limitado som do note-book um belo Cd de mantras do músico alemão Lex Van Someren. Esse trabalho inspirado, portador de uma atmosfera alegre, chama-se “Shangrila” (importado).

Texto <737><07/11/2006>