765 - JESUS – QUANDO A LUZ FALA DA LUZ NO ALTO DA MONTANHA

Certa tarde, Jesus passava com seus discípulos em frente a uma grande montanha. Ele planejava ver o pôr-do-sol lá de cima, coisa que adorava. Porém, antes que iniciasse a subida pelo caminho do monte, um homem se aproximou rapidamente e lhe perguntou: "Sei que o senhor vem da parte de Deus, pois só alguém com o poder divino é capaz de fazer os milagres de que tanto falam os seus companheiros. Então, é verdade que o divino está em seu coração e que o senhor veio dar testemunho disso entre os homens?"

O Rabi* olhou aquele homem e viu, em seu coração, que havia nele uma luta titânica entre sublimes aspirações espirituais e pensamentos pesados e carregados de medo e dor. Com carinho, ele respondeu ao homem, dizendo-lhe: "Sim, é verdade que carrego o divino em meu coração. Mas também é verdade que Ele está em seu coração e em todos os corações. Filho, Ele está em tudo!"

Contudo, o homem não entendeu e ainda lhe perguntou: "Mas, Senhor, como isso é possível? Deus está lá em cima, no céu. Como é que Ele pode estar dentro do homem, que é impuro e cheio de egoísmo?"

Com paciência, Jesus lhe disse: "Essa é a verdade do espírito que não se enxerga com os olhos da carne, nem com os dogmas religiosos criados pelos homens, mas com o discernimento espiritual e a luz da compreensão. Só o espírito compreende o espírito! O amor busca o amor! O divino só é percebido com o olho do coração. Por isso tão poucos homens têm tido a visão real, pois querem capturar o espírito apenas com os sentidos da carne.

Vem comigo. Vamos ao alto do monte meditar no Supremo que está em tudo!"

Então, o doce Rabi abraçou o homem e subiu o monte com ele e os discípulos.

Ele gostava do momento mágico do crepúsculo. Muitas vezes, enquanto olhava a linha do horizonte, entre o cair da tarde e o início da noite, ele entrava em êxtase espiritual, e o seu rosto resplandecia como um sol.

E assim aconteceu, novamente naquele fim de tarde. E ele disse àquele homem: "O contraste entre a luz do dia e as trevas da noite na natureza é semelhante ao próprio homem, que porta a luz do espírito supremo nas bordas da carne do corpo. Entre o espírito eterno e a carne transitória, o equilíbrio encontra-se no coração do homem. Mas, para chegar nele, é preciso, antes, remover as faixas escuras do egoísmo e revelar a luz do divino em si mesmo. É necessária a força do espírito para revelar aquilo que é do espírito.

Meu filho, só se percebe o divino em espírito e verdade. Só o espírito compreende o espírito! Só o amor encontra o amor!"

E, novamente ele olhou para o mágico momento do crepúsculo e arrematou: "O Pai Celestial está lá na linha do horizonte e também dentro de cada coisa no universo infinito. Está em nossos corações e no brilho de nossos olhos. Ele está em tudo!"

E, tomado de grande alegria, o Rabi fez uma prece a favor de todos os homens. E seu rosto novamente se transformou em sol. Ali, no alto da montanha, com o brilho da consciência cósmica irradiando de seu rosto, Jesus mais parecia uma criança de luz. No entanto, para ele, as crianças eram os homens. E ele os tomou para si mesmo, dentro de seu coração.

 

P.S.: Aqui e agora, nas luzes transitórias do mundo do século 21, numa das maiores cidades do planeta, eu agradeço a Jesus, esse cara tão legal e simples, verdadeiro amigo espiritual dos pequeninos e esquecidos.

Esse Rabi tão querido, que não vejo em cruz nenhuma e nem sei se é barbudo ou branco, pois o que vejo, com os olhos do coração, é um rosto de luz que mais parece um sol. O mesmo sol que iluminou o meu dia, mais uma vez. Esse sol do espírito que só pode ser visto em espírito e verdade.

Paz e Luz

- Wagner Borges - sujeito com qualidades e defeitos, que não segue nenhuma doutrina criada pelos homens da Terra; eterno neófito do TODO, ao qual agradece, por tudo.

São Paulo, 01 de março de 2007.

 

Nota:

* Rabi - mestre.

Obs.: Enquanto passava a limpo essas linhas, lembrei-me de um texto inspirado de Anthony de Melo. Reproduzo o mesmo na seqüência, para enriquecer a compreensão dos leitores e dar um toque a mais nesses escritos conscienciais.

  

O SENHOR VISHNU

O senhor Vishnu estava tão farto das contínuas petições do seu devoto que um dia apareceu diante dele e lhe disse:

- Decidi conceder-te as três coisas que desejas pedir-me. Depois não voltarei a te conceder mais nada.

Cheio de alegria, o devoto fez seu primeiro pedido sem pensar duas vezes. Pediu que sua mulher morresse para que pudesse se casar com uma melhor. Seu pedido foi imediatamente atendido.

Mas quando seus amigos e parentes se reuniram para o funeral e começaram a recordar as boas qualidades da finada esposa, o devoto caiu em si, conclui que havia sido um pouco precipitado. Agora reconhecia que havia sido absolutamente cego às virtudes da mulher. Por acaso, será que era mais fácil encontrar outra mulher tão boa como ela?

De maneira que pediu ao Senhor que a ressuscitasse. Com isso, só lhe restava um pedido a fazer. Estava decidido a não cometer um novo erro, porque desta vez não teria possibilidade de remediá-lo.

Pediu, então, conselho aos demais.

Alguns amigos o aconselharam a pedir a imortalidade. Mas de que serviria a imortalidade - disseram-lhe os outros - se não tinha saúde? E de que serviria a saúde, se não tivesse dinheiro? E de que serviria o dinheiro, se não tivesse amigos?

Passavam-se os anos e não podia determinar o que deveria pedir: vida, saúde, riquezas, poder, amor...?

Por fim, suplicou ao Senhor:

- Por favor, aconselha-me. O que devo pedir?

O senhor riu ao ver os apuros do pobre homem e lhe disse:

- Pede para seres capaz de contentar-te com tudo o que a vida te ofereça, seja lá o que for.

 

- Anthony de Mello -

 

Nota de Wagner Borges:

Anthony de Mello (1931-1987) foi um padre jesuíta - de origem indiana. Muitos de seus contos portam aquela atmosfera da sabedoria oriental, em que os ensinamentos de Buda, Krishna, e Lao-Tzé se fundem numa síntese maravilhosa com os ensinamentos de Jesus. E por essa abordagem universalista, muitos de seus escritos inspirados são citados e reproduzidos por diversos autores, seja em livros ou pela Internet.

Esse texto sobre Vishnu* e os pedidos do devoto encerra uma grande lição:

O ser humano não sabe o que quer realmente!

Talvez, lendo esse conto inspirado, nós possamos agradecer mais ao Senhor da vida, em lugar de ficar enchendo o seu saco divino com nossos pedidos mesquinhos e nossas ilusões sensoriais.

 

Nota do texto:

* Vishnu - do sânscrito - literalmente, é o "Todo-Interpenetrante". Na trimurti hinduísta, Vishnu é um dos aspectos do Divino: Brahma, Vishnu e Shiva. É o Senhor do Amor que viaja no coração espiritual de todos os seres. Ele também é conhecido como Narayana, o protetor divino, e o seu mantra mais conhecido é Om Namo Naraya Naya. O seu bija-mantra (mantra semente) é "Hari Om".


Texto <765><28/03/2007>