788 - VIDA E MORTE DO MEU ORGULHO FILOSÓFICO

- por Huberto Rohden -

Ah! Como me sentia feliz,

Naquele tempo!...

Havia aprendido, com muito esforço,

A pensar filosoficamente...

Altos conceitos, sublimes idéias e ideais

Me enchiam a cabeça e o coração...

E eu olhava com secreto menosprezo

A turbamulta dos profanos,

Da massa anônima,

Dos que não sabiam pensar

Filosoficamente.

Na cabeça e no coração era plenamente triunfante

A minha querida filosofia.

Mas, quando, um dia, tentei passar para a vida,

Para as mãos, para os pés,

Para minha vivência cotidiana,

A minha bela filosofia

Foi tremenda a minha decepção...

Ao primeiro esbarro com o mundo profano

Lá se foi, em mil pedaços,

O meu lindo cristal filosófico!...

Humilde e cabisbaixo, varri

Para a lata de lixo

Os cacos do meu cristal partido...

Quão poéticas são as teorias mentais

E quão prosaica é a prática real!

"Você é filósofo?" - perguntou-me um amigo.

Quis responder com um afoito "sim",

Como outrora,

Mas não tive suficiente energia

Para semelhante audácia

Os cacos do meu lindo cristal me preservaram

Da infecção do velho orgulho mental.

"Procuro compreender um pouco", respondi, hesitante.

E fui riscar um zero e mais um zero

Do nédio "100" da minha afirmação categórica

De tempos idos.

Ficou apenas o modesto "1" do orgulhoso "100",

Esse "1 ", mirrado e magro,

A apontar, silenciosamente,

As ignotas alturas do além...

Foi o que sobrou do opulento festim

Da minha filosofia que eu tinha

Na cabeça e no coração,

Mas que não era a minha vida...

Hoje procuro amparar,

Com mãos de solícita Vestal,

A bruxoleante luzinha sagrada,

A chama do meu grande ideal

De espiritualidade,

Feliz quando consigo

Ser na vida

Um por cento daquilo

Que sei na cabeça.

É tão orgulhosamente doce

Esse eu sei

É tão indizivelmente amargo

Esse eu sou.

O eu sei alimenta o meu velho ego,

O eu sou exige a morte desse ego

Para que nascer possa o novo Eu...

Agora, só me resta essa chama humilde

Do meu sincero querer,

Do meu sagrado crer,

Do meu cândido querer-compreender,

Na silente expectativa da graça de Deus

Que venha com sua plenitude

Encher a minha vacuidade...

- Texto extraído do inspirado livro "Escalando o Himalaia", uma das grandes obras do genial filósofo brasileiro Huberto Rohden* - Editora Martin Claret.

Nota:

* Ver a coluna dedicada a Huberto Rohden em nosso site, na seção de Multimídia - www.ippb.org.br


Texto <788><27/06/2007>