806 - PRESUNÇÃO E GRANDEZA REAL

Sobre verdejante relva uma violeta colorida exalava perfume.

Um animal invejoso, então, ameaçou-a:

- Esmago-te e se acaba a tua beleza.

Respondeu-lhe a flor:

- Se o fazes, abençôo-te com o meu perfume e viverei impregnada em ti.

 *

Desgostoso com o brilho do pirilampo, coaxou o sapo repelente:

- Cubro-te de baba peçonhenta e apago tua luz.

O inseto pequenino sorriu e contestou:

- Sacudindo tua peçonha de sobre mim, prosseguirei brilhando.

*

A flauta, recostada num estojo e veludo, zombou de ágil rouxinol numa gaiola de frágeis talas de palmeira:

- Sou maior do que tu e mais nobre. Toda feita de prata, passeio por mãos perfumadas e recebo os beijos do artista que me sopra. E tu?

A avezita feliz, surpreendida com o motejo, redargüiu:

- De minha parte, não tenho inveja de ti. É certo que é bela e forte, enquanto sou pequeno e frágil. Apesar disso, consigo algo que jamais lograrás: sem que ninguém me sopre, eu canto.

E passando à ação, pôs-se a trinar, embevecido.

*

A vela tremeluzente, espalhando fraca luminosidade, gabou-se de haver vencido a sombra.

A estrela de primeira grandeza, fulgurante no Infinito, todavia não comentou nada.

*

A lagarta rastejante reclamava por viver naquela situação lastimável.

A vida escutou-a e deixou-a dormir.

Quando despertou, flutuava no ar como leve e feliz borboleta.

*

O regato risonho acusou a vegetação da margem porque esta lhe roubava o líquido precioso.

Arrancada, impunemente, por mãos irresponsáveis, dela o córrego sorriu, vitorioso.

Sem a defesa natural, que a sombra lhe propiciava, a ardência do Sol, por sua vez, absorveu a água, e o regato desapareceu.

*

O pavio, na lamparina, petulante, disse ao azeite em que mergulhava:

- Como te desprezo, pegajoso e desagradável que és.

O combustível calado prosseguiu, humilde, permitindo-lhe arder e iluminar, pois tal era o seu mister.

*

A soberba fenece, após o brilho ilusório, enquanto a humildade permanece e felicita.

Seja você aquele cuja importância ninguém nota, mas, quando se encontra ausente, nada funciona.

Cumpra, assim, com o seu dever, e não se preocupe com a presunção dos que estão enganados em si mesmos.

Você é vida! Aja com inteireza e nunca passará.

- Eros - *

- Recebido espiritualmente por Divaldo Pereira Franco -

(Texto extraído do excelente livro "Em Algum Lugar No Futuro" - Leal Editora).

 

Nota:

* Eros: Benfeitora espiritual que adotou o pseudônimo de Eros - palavra grega que significa "amor" -, para manter-se no anonimato
Texto <806><29/08/2007>