1116 - ORIENTE-MENTE

- Por Frank -
 
No fundo de algum lugar de mim,
Onde nasce ou morre cada sentido,
Reside um Eu-contido dentro da observação desse mundo.
 
Esse Eu, que muitos chamam de Alma, observa as coisas desse plano,
E coordena o rio de conhecimento que flui de fora para dentro;
E talvez faça isso como um experimento de algo maior,
Que a minha consciência limitada da vigília não consegue compreender.
Aliás, nem tento!
 
Porém, de vez em nunca, quando quero fundir a cuca,
Entro nesses estados meditativos de contemplar o fluxo de pensamentos,
E lá, no fundo do mar de todos o conhecimento que acumulo, percebo um ponto.
 
E esse ponto tão distante começa a parecer perto - e familiar e GRANDE -,
E, à medida que vou observando-o, ele parece ter reticências...
E, ao segui-lo, assombrado, volto correndo para a vigília,
Com a lembrança torta que, dentro de mim, habita uma consciência eterna,
Que virei a ser um dia.
E, só de pensar nisso, dá vontade de dizer: já fui!
 
São Paulo, 17 de agosto de 2011.
 
- Nota de Wagner Borges: Frank é o pseudônimo do nosso amigo Francisco de Oliveira, participante do grupo de estudos do IPPB e da lista Voadores. Depois de vários anos morando em Londres, ele voltou a residir em São Paulo, em fevereiro de 2005.
Ele escreve textos muito inspirados e nos autorizou a postagem desses escritos.
Há diversos textos dele postados em sua coluna da revista online de nosso site e em nossa seção de textos periódicos, em meio aos diversos textos já enviados anteriormente. www.ippb.org.br – Outros textos podem ser acessados diretamente em seu blog na Internet: http://cronicasdofrank.blogspot.com

Texto <1116><17/08/2011>

1116 - DESPORTOS

- Por André Luiz -
 
Se há esportes que auxiliam o corpo, há esportes que ajudam a alma...
A marcha do dever retamente cumprido.
A regata do suor no trabalho.
O exercício do devotamento ao estudo.
O salto do esforço, acima dos obstáculos.
A maratona das boas obras.
O torneio da gentileza.
O mergulho no silêncio, diante da injúria.
O nado da paciência nas horas difíceis.
A ginástica da tolerância perante as ofensas.
O Vôo do pensamento às esferas superiores.
A demonstração de resistência moral nas provas de cada dia.
Todos esses desportos do espírito podem ser praticados em todas as idades e condições. E creia que qualquer campeonato num deles será prêmio de luz em seu coração, a brilhar para sempre.
 
(Recebido espiritualmente pelos médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira - na década de 1960 – Texto extraído do livro "Estude e Viva" – Edição da FEB – Federação Espírita Brasileira.)
 

Texto <1116><17/08/2011>

1115 - TOQUES ETÉREOS NO CORAÇÃO – II*

Aquilo que dá no coração,
É como uma linda canção:
Não tem idade!
 
É o que se sente...
E que ninguém explica
Apenas é.
 
Aquilo que faz a gente viajar...
Nas trilhas das estrelas,
É amor.
 
Porque, às vezes, nós voamos...
Pelo céu do coração,
E é voo do espírito.
 
Aquilo que os olhos não veem,
E que só é visível à inteligência,
É o Inefável**.
 
É o que não se agarra com as mãos,
E nem com apelos místicos,
E que é só Espírito Puro.
 
Aquilo que é real – além do que imaginamos,
E que nos motiva, em Espírito e Verdade,
É o Supremo.
 
E não há palavras que definam isso.
O que se sente... Um toque sutil,
Que só o coração é que sabe.
 
Aquilo que está além da vigília e do sono,
E também além dos sonhos,
É Consciência Cósmica!***
 
A Luz que respiramos – é a vida.
O sopro vital do eterno – é Brahman!****.
Tudo é Ele, tudo é Ele, tudo é Ele...
 
Aquilo que dá no coração,
E que faz a gente escrever,
Disso eu não entendo, não.
 
Porque, quem sabe isso é só o Supremo.
E Ele só conta ao coração, na linguagem do espírito.
E quem pode descrever isso?
 
Ah, aquilo que dá no coração... Brahman!
 
(Dedicado a Paramahamsa Ramakrishna*****.)
 
Paz e Luz.
 
- Wagner Borges -
São Paulo, 13 de julho de 2011.
 
- Notas:
* A primeira parte desse texto está postada no site do IPPB – www.ippb.org.br -, no seguinte endereço específico: https://ippb.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10225:toques-etereos-no-coracao&catid=138:ultimos-textos-postados&Itemid=271
** O Inefável – O Todo; O Supremo; O Absoluto; Deus.
Obs.: Trecho da sabedoria hermética clássica: “O Inefável é invisível aos olhos da carne, mas é visível à inteligência e ao coração.”
*** No contexto dos Upanishads - a parte final dos Vedas -, que contêm a sabedoria dos rishis (sábios espirituais) da antiga Índia, os estados de consciência do homem são divididos em três: vigília, sono e sono sem sonhos. Então, quando alguém transcende esses níveis convencionais e alcança uma elevação de consciência (um estado de superconsciência, ou de expansão da consciência, chamado em sânscrito de “samadhi”), diz-se que a pessoa entrou no “quarto estado”, que em sânscrito é chamado de Turiya. Ou seja, a pessoa mergulha num estado transcendental de consciência cósmica.
Sobre isso, nada melhor do que as palavras de Paramahamsa Ramakrihsna (que voltava de uma experiência transcendente dessas):
“As ondas do Divino Amor estão se quebrando no meu corpo.
A maré crescente do Mar do Amor produz a queda da injustiça.
Sim, inunda todo o universo...
Eu pensava submergir-me até o fundo do mar, porém, o crocodilo do êxtase me tragou.
Quem terá compaixão de mim e, tomando-me pela mão, me tirará da água?”
**** Brahman – do sânscrito - O Supremo; O Grande Arquiteto Do Universo; Deus; O Amor Maior Que Gera a Vida. Na verdade, O Supremo não é homem ou mulher, mas pura consciência, além de toda forma. Por isso, tanto faz chamá-Lo de Pai Celestial ou de Mãe Divina. Ele é Pai-Mãe de todos.
***** Paramahamsa Ramakrishna – mestre iogue que viveu na Índia do século XIX e que é considerado até hoje um dos maiores mestres espirituais surgidos na terra do Ganges. Para se ter uma ideia de sua influência espiritual, posso citar que grandes mestres da Índia do século XX se referiram a ele com muito respeito e admiração, dentre eles o Mahatma Ghandi, Paramahamsa Yogananda e Rabindranath Tagore.

Texto <1115><12/08/2011>

1115 - CURA

- Por Frank -
 
Doente, busquei nos homens de branco - e também na gente das estrelas -, a cura de todas as minhas mazelas; e, por um tempo, achei que estava bem.
Mas, não estava!
Tinha me curado, por fora, mas a doença seguia cobrindo-me, por dentro - com tudo aquilo que eu não queria olhar -, e seguia doendo... Até que eu percebi que a cura real não poderia vir de fora, mas, de dentro.
Minha doença vinha das minhas interpretações do passado, das marcas e mágoas que nunca tive coragem de tratar; e eu ignorava que elas podiam causar tanto dano ao meu corpo. Duro engano, pois tudo parecia bonito, por fora, e, por dentro, tanto pranto.
Essas mágoas, como vírus que se espalham, foram tomando conta de tudo, camada por camada; e o meu corpo foi tentando me avisar: "Olha os sinais, toda doença é conto a narrar!"
Talvez, por merecimento ou sorte, pude, há tempo, perceber um impulso, que foi me revestindo de coragem para compreender o que precisava ser feito. E busquei, dentro de mim, as forças necessárias para trazer à consciência que esse impulso era a grande chance que eu precisava para me autocurar.
E tomei desse remédio chamado “aceitação”, e a cura se estabeleceu com as atitudes que precisei tomar para as mudanças se processarem na minha vida. E a minha alta finalmente ocorreu, quando optei por não mais ignorar que são os ecos das lamúrias do passado que nos levam ao esquecimento do nosso próprio poder de se curar.
 
São Paulo, 12 de maio de 2011.
 
- Nota de Wagner Borges: Frank é o pseudônimo do nosso amigo Francisco de Oliveira, participante do grupo de estudos do IPPB e da lista Voadores. Depois de vários anos morando em Londres, ele voltou a residir em São Paulo, em fevereiro de 2005.
Ele escreve textos muito inspirados e nos autorizou a postagem desses escritos.
Há diversos textos dele postados em sua coluna da revista online de nosso site e em nossa seção de textos periódicos, em meio aos diversos textos já enviados anteriormente. www.ippb.org.br – Outros textos podem ser acessados diretamente em seu blog na Internet: http://cronicasdofrank.blogspot.com

Texto <1115><12/08/2011>

1115 - MERGULHO NA PAZ

(Parábolas)
 
- Por Hermógenes -
 
Pretensão infantil me levou a filosofar com a fonte. Desejei estimulá-la, e disse-lhe:
- Hoje, minha amiga, és humilde e ainda muito longe estás de tua imersão no Mar. Nada de impaciência. Tem fé e persistência. Algum dia chegarás ao Mar e herdarás sua imensidão.
E a fontezinha do grotão, de voz de cristal gelado, falando bonito, me disse:
- Não vês? Eu estou vindo do Mar, embora pareça nascer do fundo da pedra. Já sou o Mar. Nunca deixei de ser o Mar.
 
* * *
 
O carneirinho, rebelde, um dia fechou os ouvidos às mansas palavras do piedoso pastor. Corajoso, renunciou ao redil e saiu. Audaz e só, entregou-se à aventura ou desventura dos campos. Saiu sozinho. Padeceu sozinho e solitário, sem a proteção do redil, sem a companhia dos outros, sem o sermão do pastor…
A estrela que tanto buscava, vendo-o, intimorato e livre, a procurar por ela, veio do céu para ele, para fazer-lhe companhia, para fazê-lo feliz, para guiá-lo.
Os outros, com medo da dor, ficaram no redil, protegidos, escutando histórias de estrelas inventadas pelo pastor.
 
* * *
 
Agonizante, o ricaço pediu o talão de cheques.
Fixou nele os olhos pastosos e quase sem vida. Nada falou. Mas cada um leu naquele olhar uma expressão indefinida.
Alguns entenderam que naqueles olhos havia saudade.
Outros achavam ser remorso o que aqueles olhos diziam.
Outros viram neles uma imensa frustração.
Nenhum conseguiu reconhecer o menor sinal de gratidão.
 
* * *
 
Desabou a chuva e estragou a festa dos jovens. Eles a amaldiçoaram.
Aquela mesma chuva trouxe vibrações de esperança ao homem que semeara o milho. Ele a abençoou.
 
* * *
 
Um tolo, todos os dias, batia no peito e repetia contrito: “Eu pecador, eu pecador, eu pecador…”
Acabou sendo.
Um sábio, mesmo quando em sofrimento, orava, repetindo: “Eu e Deus somos um, Deus e eu somos um, eu e Deus somos um…”
Acabou sendo.
 
* * *
 
Era uma vez um arquipélago em mar bonito e largo, soprado de ventos suaves e de atmosfera sempre limpa. Nunca se vira nele um tufão.
Naquele mar, sempre a tanquilidade. Na alma de cada ilha, e entre as ilhas, a paz não existia. Ao contrário, eram vaidosas e estavam sempre competindo.
Dizia uma:
- É nas minhas águas que os pescadores acham as pérolas mais valiosas para enfeitar o colo das princesas.
A outra retrucava:
- Esqueces que é nas minhas praias que os poetas do reino, enamorados, compõem os mais belos cânticos. Fazem canções que amenizam os sofrimentos do povo pobre e também dão encanto aos sonhos de amor das princesas.
Uma terceira interferia:
- Onde é que os pescadores acham alimento? É nas minhas águas que apanham peixes, tartarugas, camarões…. É de mim que retiram o sustento dos filhos. O que sobra vão vender no mercado.
Passaram-se dias, meses, anos, séculos… Sempre a paz no mar. Sempre a rixa no arquipélago.
Numa tarde, de repente, uma das ilhas começou a sacudir-se e, em poucos minutos, agitada em agonia vulcânica, desfazendo-se ruidosamente, desapareceu sob as águas.
Enquanto isso, as outras, ainda estupidamente rivais, embora aparentando compaixão, para si mesmas diziam:
- Antes ela do que eu.
Demorou pouco. Também atingidas pela comoção da plataforma, foram igualmente tragadas pelo fogo e pelo mar.
De si mesma e das outras, cada ilhazinha conhecia apenas o que ficava acima da água. Ignoravam que, no fundo, eram uma só. Ignorantes, não percebiam que o mal ou o bem não atingiria uma sem atingir as outras. Por isso eram orgulhosas, estúpidas e rivais.
Cada homem é uma ilhazinha ignorante no arquipélago da humanidade.
 
* * *
 
Um dia, um gênio estava na praia a ver o mar. Era um daqueles maravilhosos seres que podiam usar os imensos poderes do Céu.
A certa hora, observou que uma ânfora pequena ia e vinha, flutuando nas ondas.
- Quem és? – perguntou o gênio.
- Sou Ahamkara. Sou apenas um pouquinho da água do mar – respondeu uma vozinha tímida e sofredora.
- Estás enganado. Não és somente um pouquinho do mar. Em realidade, és o próprio mar.
- Quem me dera, Senhor. Sou coisa nenhuma. Sou tão miserável! Não passo de uma porçãozinha do mar, dentro desta ânfora – continuou a lamentar-se e a teimar Ahamkara.
- Em verdade, repito, estás errado. És todo o mar infinito.
Para provar o que dizia, com um golpe de bastão arrebentou a ânfora, ao mesmo tempo que perguntava, desafiando.
-Ahamkara, onde estás? Quem és?!
E o mar infinito respondeu com silêncio.
 
* * *
Temos errado em supor que eu sou um e tu és outro. Vale a pena escutar a inteligente advertência de um rio que assim falou a outro:
- Não somos dois rios nascidos de fontes diferentes, correndo em leitos diferentes, sem nada ter um com o outro. Se achamos que não somos um só é porque uma ilha fluvial nos separa e nos ilude. O nome desta ilha é Ignorância.
 
* * *
Atirando moeda ao mendigo, pensava um homem:
- Com isto, afasto do meu destino vir a ser igual a ele.
Era um covarde.
Um outro deu a esmola, convencido de que “dar aos pobres é emprestar a Deus”.
Era um mercenário.
Um homem ajudou ao mendigo porque via na esmola, no mendigo, no ato de dar, e em si mesmo o próprio Ser Supremo.
Era um santo.
 
(Trechos extraídos do excelente livro “Mergulho na Paz” – Edições BestBolso – 2011.)
 
- Nota:
* Hermógenes – escritor, professor e instrutor de Yoga. É um dos pioneiros na introdução da disciplina indiana no Brasil.

Texto <1115><12/08/2011>