446 - BEM VIVO MESMO
Oi, mãe!
O acidente que me levou embora ocorreu na hora certa do meu destino. Havia soado as doze badaladas da meia-noite no relógio do meu Carma (1). E eu não morri, apenas me fui no meu destino espiritual. O acidente não me matou, só me soltou da carcaça física que me segurava por aí. Não vou dizer que foi fácil somente para te consolar e te poupar, porque, na verdade, não foi. Sair do corpo abruptamente é sempre uma experiência forte para o espírito e muitos chegam a ficar aparvalhados durante muitos meses após a passagem violenta, não obstante a assistência maravilhosa que os nossos amigos espirituais dão na difícil adaptação extrafísica.
Mãe, não vou te mentir: os primeiros tempos aqui foram bastante difíceis. Na realidade, fiquei puto (2) da vida de ter morrido desse jeito, longe dos meus afetos e enlatado como uma sardinha dentro do carro batido, na escuridão da noite.
Tive toda a assistência espiritual na hora do meu desprendimento do corpo físico e não senti dor. Contudo, não posso negar, tomei um susto enorme e fiquei meio traumatizado, tremendo igual vara verde na ventania. Lembrei de ti e tremi mais ainda pensando no sofrimento que passarias quando soubesse que o teu querido filho havia sido amassado num estúpido acidente de carro. Fiquei muito aflito e sei que o teu coração sentiu a minha aflição de alguma maneira, pois parece que o coração das mães é dotado de um sexto sentido especial que as leva a sentir os filhos onde quer que eles estejam.