881 - O TAO DA LEMBRANÇA VITAL II

(Lendo o Tao Te Ching do Coração)
 
- Por Wagner Borges -
 
Foi durante uma experiência fora do corpo que eu o encontrei.
Levado pelo meu coração, eu encontrei o coração dele.
Num templo taoísta extrafísico, por cima da montanha Kun Lung, nós conversamos, de espírito a espírito.
E Lie-Tao*, o velho sábio chinês, a quem eu tanto admiro, riu e me disse mentalmente:
 
“Tudo o que existe nos nove mundos siderais é por obra e graça do Tao.
Mas o que os homens e os espíritos fazem é por conta deles mesmos.
Quem procura confusão, acha! E quem procura serenidade, também acha.
Tudo é questão de foco mental e de onde a consciência se liga em pensamento.
Ligações sombrias adoecem o chi ** da pessoa.
Ligações sadias enchem o coração de alegria e renovam o chi. Bom humor cura!
E, assim, como o Tao nada julga, os sábios também não julgam e a todos compreendem.
Existe um Tao Te Ching*** do coração. Foi dele que Lao-Tzé tirou sua sabedoria e exteriorizou-a em seus célebres escritos.
Na verdade, ele apenas revelou ao mundo parte da sabedoria perene ensinada, antes dele mesmo, por várias gerações de sábios.
E o que eles ensinavam?
Ah, meu rapaz, tudo se resume numa só coisa: equilíbrio!
A harmonia do chi pessoal com o chi da natureza e do universo.
A serenidade das emoções e dos pensamentos, harmonizados pela reflexão e pelo trabalho justo.
Os vôos da consciência para fora do seu corpo humano, para estudos e trabalhos nos nove mundos siderais.
O contentamento com as coisas simples da vida.
A alegria de se sentir conectado ao Tao.****
Vários sábios ensinavam isso porque liam o Tao Te Ching em seus próprios corações.
Então, faça a mesma coisa! Leia em seu coração.
Harmonize-se consigo mesmo. Alegre-se com as coisas simples da vida.
E aí, você perceberá o Tao em tudo!
Agora, retorne ao seu corpo físico e lembre-se de tudo isso.
Venha aqui quando quiser. As portas dos templos de sabedoria estão sempre abertas para quem quer aprender verdadeiramente.
E, quando você tomar chá, feche os olhos e agradeça e brinde ao Tao, a Eterna Urdidura do Princípio Vital.
Meu rapaz, voe feliz.”
 
P.S.:
Com o sábio Lie-Tao aprendi a ler o Tao Te Ching do coração.
Agora, fecho os olhos e tomo o chá.
E agradeço ao Tao, por tudo.
E fico feliz, só por isso.
Mesmo nas coisas simples da vida, o Tao está.
Ele é a Grandeza das grandezas.
O Tao está em tudo!
 
Paz e Luz.
 
São Paulo, 10 de setembro de 2008.
 
- Notas:
* Lie-Tao – mestre taoísta extrafísico.
** Chi - do chinês - força vital, energia.
Dentro dos ensinamentos taoístas, a força vital é polarizada na natureza das coisas em dois aspectos fenomênicos: o Yin e o Yang, as alternâncias do Chi, as polaridades da energia.
*** Tao Te Ching – o grande livro da sabedoria taoísta clássica da China antiga, de autoria do sábio Lao-Tzé – em 600 a.C.
**** Tao - do chinês - "O Caminho"; "a essência de tudo"; "O Todo".
Na verdade, o Tao não pode ser descrito ou explicado por palavras humanas. Por isso, deixo a cargo do sábio Lao-Tzé uma explicação mais apropriada:
"Há algo natural e perfeito, existente antes de Céu e Terra.
Imóvel e insondável, permanece só e sem modificação.
Está em toda parte e nunca se esgota.
Pode-se considerá-lo a Mãe de tudo.
Não conhecendo seu nome, chamo-o Tao.
Obrigado a dar-lhe um nome, o chamaria Transcendente."
 
- Lao Tzé - in "Tao Te Ching" – China; Século VI a.C.
Obs.: Para enriquecimento e melhor compreensão dos leitores, sugiro a leitura da primeira parte desse texto (contendo ponderações importantes sobre as experiências fora do corpo e algumas sugestões de exercícios pertinentes), postada pelo site do IPPB em setembro de 2007, no seguinte endereço específico do site: https://ippb.org.br/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid=5331.

Texto <881><20/09/2008>

880 - CONVERSANDO SOBRE ASSÉDIOS EXTRAFÍSICOS

(Resposta a um E-mail Sobre os Mecanismos da Sintonia Espiritual)

 
Pergunta - É possível que espíritos obsessores acompanhem uma pessoa para outro país? E, se isso ocorre, por que é assim?
 
Resposta - Você acha mesmo que uma mudança de lugar pode resolver um problema consciencial? Talvez, no início, em ambiente novo, com novos colegas e se adaptando ao idioma local, a pessoa se sinta motivada e contente. Mas isso é só por fora e não resolve as causas internas que atraem os assédios extrafísicos.
Os espíritos são atraídos para a aura das pessoas pelo que elas pensam, sentem e fazem. Eles estão pouco ligando se a pessoa fala inglês, alemão ou chinês. Eles pegam carona na sintonia do que a pessoa manifesta. E isso é em qualquer lugar e tempo*.
Já vi casos de famílias européias, que imigraram para o Brasil, com grupos de espíritos assediadores colados nelas. Os caras extrafísicos nem ligavam para o ambiente. O lance deles é o que os ligava às pessoas e seu mundo psíquico.
Se você viajar para outro país e continuar mantendo as condições que atraem espíritos para sua aura, nada mudará espiritualmente. Você só estará em outro lugar, mas seu coração é o mesmo. E suas mazelas interiores continuarão demandando trabalho de aprimoramento para elas.
Que alfândega de algum país pedirá passaporte para entidades invisíveis? Que fronteira material impedirá os assédios que começam no mundo psíquico?
E, outro detalhe importante: você pensa que em outros países não há assediadores extrafísicos? Isso é um problema psíquico mundial e tem a ver com a própria imaturidade da humanidade, sempre presa a valores temporários e ilusórios.
Inclusive, você poderá entrar no avião para algum país e, junto, em sua aura, presenças invisíveis também viajarão, na faixa, como se diz popularmente.
Você poderá estar num curso de idiomas, para se preparar para futuras viagens de trabalho ou estudo e, bem juntinho, espíritos pesados pairando ao seu redor. E eles nem precisam entender que idioma você está aprendendo, pois vêem o que está em sua mente e em seu coração. Na verdade, eles prospectam profundamente o que está bem no seu íntimo.
E é por ali que eles chegam, principalmente durante o sono, quando a pessoa se vê temporariamente projetada** para fora do seu corpo e de frente com seus algozes extrafísicos.
Então, se cuide. O ensinamento de Jesus é direto na veia: “Orai e vigiai!”
Isso vale aqui e em qualquer lugar ou plano de manifestação, da Terra ou do Astral.
Cada um manifesta em sua aura o que tem dentro de seu próprio mundo interno.
Qualidades e defeitos viajam dentro da mesma consciência. Céu e inferno são portáteis, cada um carrega o seu dentro de si mesmo. Por onde alguém for, levará o que tem dentro. Isso é assim em inglês, alemão ou chinês. É assim no Brasil e em qualquer país.
E, também, há poliglotas encrencados espiritualmente, como qualquer outra pessoa. Inclusive, alguns conhecem várias culturas e viajaram muito. No entanto, quem é que conhece a linguagem da sabedoria? Quem é craque em felicidade e equilíbrio vital?
O que defende você é o que você é. É sua integridade de caráter. É sua energia, que depende diretamente do que você pensa, sente e realiza no mundo.
Suas companhias, físicas e extrafísicas, estão em relação direta com a sintonia do que você busca. Isso não tem nada a ver com seu passaporte ou seu emprego. Tem a ver com o que você é. E, por onde for, você sempre estará acompanhado de você mesmo...
Por isso, para estar bem acompanhado amanhã, melhore hoje.
Essa é a viagem real: aquela que acontece dentro da própria consciência.
 
Paz e Luz.
 
- Wagner Borges –
São Paulo, 18 de agosto de 2008.
 
- Notas:
* Toque consciencial do sábio mentor espiritual Ramatís: 
“Todos os homens estão cercados de espíritos que os assistem, tentam, protegem, ajudam ou exploram, quer sejam teosofistas, rosacruzes, iogues, espíritas ou católicos! Os encarnados atraem espíritos de conformidade com suas idéias, paixões ou intenções, pouco importando a sua crença ou religião.”- in “A Missão do Espiritismo”
** Projeção da consciência – é a capacidade parapsíquica - inerente a todas as criaturas -, que consiste na projeção da consciência para fora de seu corpo físico.
Sinonímias: Viagem astral – Ocultismo.
Projeção astral – Teosofia.
Projeção do corpo psíquico - Ordem Rosacruz.
Experiência fora do corpo – Parapsicologia.
Viagem da alma – Eckancar.
Viagem espiritual – Espiritualismo.
Viagem fora do corpo – Diversos projetores extrafísicos e autores.
Emancipação da alma (ou desprendimento espiritual) – Espiritismo. Arrebatamento espiritual - autores cristãos.

Texto <880><17/09/2008>

880 - UM PRESENTE ESPIRITUAL NA LUZ DE SETEMBRO

(Um Olhar Doce e Sereno Antecedendo a Primavera)

 
Você veio até o meu lar.
E preencheu o ambiente de serenidade.
Falou-me de Luz e de Liberdade.
Da importância do diálogo e da compreensão.
E da fé que ilumina o coração espiritual.
 
Perguntei-lhe algumas coisas.
E você apenas riu e me disse:
“Quem tem as respostas é a vida.
Observe e aprenda. Tire lição e maturidade.
Receba a vida como um presente.”
 
Você me fez olhar para além do horizonte...
Para o Grande Coração de Deus.
De onde vem toda força e inspiração.
De onde a vida surge, na corrente do Eterno...
 
Você me disse: “Gratidão é elevação.
Sempre agradeça ao Supremo, por tudo.
Mesmo por um dia difícil, que também ensina algo.”
 
Então, olhei para você e vi algo.
Vi uma doçura serena emanando do seu olhar.
E pensei por quantas provas e vidas você já passou...
E o quanto superou e se transformou, para ser assim.
 
Você não me mostrou; fui eu que vi.
O seu jeito simples de ser não esconde sua profundidade.
E a sua aura*, clarinha e tranqüila, é o seu cartão de visita.
 
Olha, hoje eu tentei escrever algo, mas não consegui.
Faltou inspiração. Tem dias que não rola nada mesmo.
Então, resolvi escrever sobre você e seu olhar sereno.
Pois, talvez, sua doçura viaje junto com esses escritos...
 
E aí, meu caro, outros corações sentirão um carinho secreto.
Sim, outros corações sensíveis ao Bem e a Luz.
Outros corações, dentro do mesmo Grande Coração de Deus.
 
Você veio até o meu lar.
E eu nem consegui escrever uma canção para você.
Nem poema, nem nada. Desculpe, mas não deu.
Então, leve o meu olhar com você. Não tem sua doçura, eu sei.
Mas tem o brilho da admiração e da gratidão.
 
E, por onde eu for, sempre me lembrarei de sua serenidade.
Principalmente nos momentos de pressão e de provas difíceis.
E, também, quando eu observar o sofrimento de alguém.
O seu olhar será minha inspiração para verter luz em silêncio.
 
Sim, diante da dor e agitação do mundo, me lembrarei de você.
Para serenar minhas próprias emoções e fazer o que você me ensinou:
Emanar luz, em silêncio, a favor de todos... Com respeito e compreensão.
E agradecer ao Todo, por tudo.
 
Meu amigo, da próxima vez, terei uma canção aqui.
Algo que fale de amor, como você gosta.
Algo com a atmosfera da primavera.
Com a inspiração do Grande Coração do Eterno.
 
P.S.: Daqui a alguns dias, chegará a Primavera.
Mas você já encheu o meu lar de flores.
As flores da paz, que florescem no coração.
Meu amigo, valeu pela visita. Foi um presente.
 
(Dedicado a um amigo espiritual, anônimo e sereno, trabalhador da Luz, que, às vezes, vêm aqui no meu lar para falar-me das coisas do espírito e dos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade). 
 
Paz e Luz.
 
- Wagner Borges (sujeito com qualidades e defeitos, mestre de nada e discípulo de coisa alguma, que não segue nenhuma doutrina criada pelos homens da Terra, sempre agradecido ao Grande Arquiteto Do Universo, por tudo).
 
São Paulo, 17 de setembro de 2008. 
 
- Nota:
* Aura - Latim: aura, sopro de ar – halo luminoso de distintas cores que envolve o corpo físico e que reflete energeticamente o que o indivíduo pensa, sente e vivencia no seu mundo íntimo.
** Enquanto eu escrevia essas linhas, lembrei-me de um belo poema do mestre sufi Rumi. Reproduzo o mesmo na seqüência.
 
 
 
O MUNDO ALÉM DAS PALAVRAS
 
- Por Rumi -
 
Dentro deste mundo há outro mundo,
Impermeável às palavras.
Nele, nem a vida teme a morte,
Nem a primavera dá lugar ao outono.
Histórias e lendas surgem dos tetos e paredes,
Até mesmo as rochas e árvores exalam poesia.
Aqui, a coruja transforma-se em pavão,
O lobo, em belo pastor.
Para mudar a paisagem,
Basta mudar o que sentes;
E, se queres passear por esses lugares,
Basta expressar o desejo.
Fixa o olhar no deserto de espinhos.
- Já é agora um jardim florido!
Vês aquele bloco de pedra no chão?
- Já se move e dele surge a mina de rubis!
Lava tuas mãos e teu rosto
Nas águas deste lugar,
Que aqui te preparam um fausto banquete.
Aqui, todo ser gera um anjo;
E, quando me vêem subindo aos céus,
Os cadáveres retornam à vida.
Decerto viste as árvores crescendo da terra,
Mas quem há de ter visto o nascimento do Paraíso?
Viste também as águas dos mares e rios,
Mas quem há de ter visto nascer,
De uma única gota d'água, uma centúria de guerreiros?
Quem haveria de imaginar essa morada,
Esse céu, esse jardim do Paraíso?
Tu, que lês este poema, traduze-o.
Diz a todos o que aprendeste
Sobre este lugar.
 
(Texto extraído do livro "Poemas Místicos" - Jalal ud-Din Rumi - Editora Attar).


Texto <880><17/09/2008>

879 - NÃO SOU MESTRE DE NINGUÉM

- Por Huberto Rohden -
 
Não sou mestre de ninguém.
Ninguém é discípulo meu.
Sou como a flecha na encruzilhada,
Cuja missão é apontar o caminho certo,
E depois ser abandonada...
Se o viandante não ultrapassar a seta,
Não cumpre o desejo da mesma.
Ai de mim se eu não for abandonado!
Se o viandante parar diante de mim,
Contemplando a minha forma e cores.
Se, em vez de demandar a invisível longinqüidade,
Se enamorar da minha visível propinqüidade,
E não compreender a minha mensagem,
Que aponta para além de mim,
Rumo ao Infinito. .
Ai de mim, se eu for espelho,
Perante o qual os homens parem
Para se contemplarem a si mesmos,
Em mortífero narcisismo!
Feliz de mim, se eu for janela aberta,
Que permita visão de horizontes longínquos,
Passagem franca para o Infinito!
Não sou mestre de ninguém,
Ninguém é discípulo meu!
Indico a todos, o Mestre invisível,
Que habita na alma de cada um,
E para além de todos os mundos.
Sinto-me feliz, quando o viajor,
Orientado pela legenda da minha seta,
Abandona-me e vai em demanda
Da indigitada meta,
Em espontânea liberdade,
Rumo à longínqua felicidade...
 
- Texto extraído do livro “A Voz do Silêncio” – do genial filósofo brasileiro Huberto Rohden – Editora Martin Claret.
Obs.: Ver a coluna dedicada a Huberto Rohden em nosso site, na seção de Multimídia – www.ippb.org.br.


Texto <879><13/09/2008>

879 - RAMAKRISHNA E O MACACO BÊBADO

(Toques de Shradha do Mestre da Simplicidade)
 
Foi ali, numa viagem espiritual para fora do corpo, que eu O encontrei novamente. Ele riu com gosto, como sempre.
Parecia uma criança arteira. E, no entanto, eu estava diante de um dos maiores mestres iogues que o mundo já viu.
Olhei para ele como um filho olha para seu pai, e perguntei-lhe:
 
“É chegada minha hora? Não sei se agüento tanto amor chegando em meu pequeno coração. Sinto saudade dos espaços livres, como você também sentia quando estava na Terra. Mas eu não tenho desenvolvida a capacidade que você tinha de transformar tudo em luz e simplicidade. Eu não sou mestre de coisa alguma. Sou só eu mesmo, tentando crescer e fazendo o melhor possível em cada situação. E não é fácil, nunca foi.
Diga-me: a Mãe Divina mandou você me buscar? É hora de voar para outras paragens? Esse grande amor que sinto vai me arrebatar definitivamente para além do pequeno coração? Está na hora de escutar música em outros sítios? E de rir em outros planos, junto com os amigos espirituais?”
 
Então, Ele riu mais ainda e começou a pular na minha frente, fazendo caretas e gestos engraçados. E me disse:
 
“Você parece um macaco bêbado tentando se equilibrar nos galhos. Desse jeito não dá para lhe explicar nada. Quem lhe disse que eu sei o tempo de vida de alguém? Quem sabe tudo é só a Mãe Divina. Pergunte a Ela diretamente. Mas, antes, deixe-me mostrar-lhe umas coisas.”
 
Em seguida, Ele me pegou pelo braço e me levou pelos ares. De grande altura, Ele apontou para o mundo abaixo de nós e disse-me:
 
“Veja com o olho espiritual e sinta com o coração. Olhe bem as emanações escuras que envolvem a humanidade em seu momento atual. Veja as faixas escuras que pressionam invisivelmente os homens. Perceba a grande intoxicação psíquica causada pelo materialismo e pelo egoísmo que grassam em seus corações. Escute os gritos de dor, dos homens e dos espíritos, que poucos escutam. A fome de amor é grande e o vazio existencial machuca a alegria de viver. E o resultado disso é o sofrimento, psíquico e físico.
Diante de tanto trabalho de esclarecimento espiritual a ser feito entre os homens, você quer ir embora? Quer voar livre enquanto seus irmãos choram agrilhoados às correntes do mundo?
Acha que é hora de voltar para casa, quando há tanto a ser feito no mundo dos homens tristes? Pensa que sua vida é só sua?
Eu sei... Projetar clarinadas espirituais no seio do mundo não é tarefa fácil. Também sei das repercussões decorrentes disso e da solidão que se sente (e que até mesmo companheiros de jornada não poderão compreender integralmente.)
Sei das saudades e de como é difícil ancorar um grande amor num corpo humano. E das dificuldades que um tarefeiro repleto de Shradha passa diante das dúvidas e vaciladas em torno, até mesmo de quem lhe é próximo.
Mas as clarinadas espirituais que um trabalho firme projeta no meio humano têm o valor que só o mundo espiritual é que sabe. Nunca mensure o seu efeito apenas pelo ambiente físico e pelas pessoas em torno. Clarinadas espirituais ocasionam efeitos em diversos planos e transformam consciências. Elevam o padrão de discernimento e amor e fomentam muitos trabalhos de assistência extrafísica.
Isso, olhe para baixo e veja o mundo de provas e expiações. Esse é o seu lugar! Para aprender e trabalhar, como homem, igual a todos. Para espetar o materialismo exacerbado com os toques conscienciais.
Como é que você quer ir embora, quando as clarinadas espirituais são tão necessárias?
Não sei quando será sua hora, mas sei que não é agora. Aprenda a transformar o grande amor em mais luz e força na jornada e não espere receber amor igual e nem compreensão a respeito do que faz.
Quem lhe ama mesmo é a Mãe Divina! Ela sabe quem respira junto com seu coração e é da mesma Luz. Ela sabe quem lhe acompanha, em espírito e verdade. Conhece o seu dharma e sabe quem soma mais apoio e companheirismo na jornada, de coração.
Agora, deixe de se comportar como um macaco bêbado e não me pergunte mais nada. Continue sendo você mesmo. Basta isso.
Desce um grande amor em seu pequeno coração para que ele cure os homens e os espíritos. Para agüentá-lo, não procure reconhecimento ou compreensão de ninguém. Apenas escute os gritos de dor de seus irmãos e compreenda porque um grande amor desce entre os homens. Compartilhe-o, em silêncio. Se for preciso, chore quietinho, para aliviar suas emoções como homem, mas nunca deixe de fazer o que você faz.
Viva simplesmente. Como homem de bem. Sentindo-se igual a todos. Faça sua música. Você sabe: viva no mundo, mas sem ser do mundo. E, na hora certa que a Mãe Divina determinar, eu virei buscá-lo. Mas, até lá, há muito dharma a realizar neste mundo.
Deixe de ser como macaco bêbado, rapaz!”
 
Então, Ele me deu um tapinha no ombro e eu caí de grande altura para dentro do corpo, com as inevitáveis repercussões físicas (solavanco intenso e sensação de ter despencado do alto e caído abruptamente dentro da matéria).
Abri os olhos imediatamente e refleti em tudo o que Ele me disse. E até agora estou refletindo.
Aqui em Curitiba está chovendo e fazendo frio. O próprio clima convida à introspecção. Mas eu estou quietinho por outros motivos, que não são daqui.
O Grande Amor está aqui, em meu pequeno coração. E eu penso na imensa trama dhármica tecida pela sabedoria da Mãe Divina. A mesma trama que um dia me levou aos pés de Paramahamsa Ramakrishna e que me permitiu viver e aprender por um tempo com esse grande mestre cheio de simplicidade e alegria.
Talvez um dia eu compreenda o porquê de Ela ter me dado o presente de conviver com Ele. Sim, talvez algum dia eu saiba o porquê de tanto amor descer nesse meu pequeno coração de macaco bêbado.
Até lá, irei driblando a saudade e fazendo o melhor possível e sendo eu mesmo, sempre enamorado da Luz.
 
Om Viveka!
Om Shradha!
Om Prema!
 
Paz e Luz.
 
(Texto postado originalmente na lista interna do Grupo de Estudos e Assistência Espiritual do IPPB)
 
- Wagner Borges (seu colega de evolução, tentando deixar de ser um macaco bêbado). 
Curitiba, 14 de agosto de 2008.
 
- Notas do sânscrito:
* Paramahamsa Ramakrishna: mestre iogue que viveu na Índia do século XIX e que é considerado até hoje um dos maiores mestres espirituais surgidos na terra do Ganges. Para se ter uma idéia de sua influência espiritual, posso citar que grandes mestres da Índia do século XX se referiram a ele com muito respeito e admiração, dentre eles o Mahatma Ghandi, Paramahamsa Yogananda e Rabindranath Tagore.
* Viveka – discernimento espiritual.
* Prema – amor divino, incondicional.
* Darma – do sânscrito “Dharma” – dever, missão, programação existencial, mérito, bênção, ação virtuosa, meta elevada, conduta sadia, atitude correta, motivação para o que for positivo e de acordo com o bem comum.
* Shradha – sobre essa expressão específica, deixo na seqüência um texto antigo onde explico a mesma em detalhes.
Segue-se o texto abaixo.
 
SHRADHA
 
- Por Wagner Borges –
 
Quando a Shradha* de um homem enfraquece, o lótus do coração murcha e o brilho da espiritualidade desaparece de seus olhos. Sem Shradha, o horizonte fica turvo e a vida fica sem significação. Há queda de qualidade espiritual e o homem fica pobre internamente. Sua esperança é tragada na miséria de seus anseios e, por fim, o "crocodilo da tristeza"** abocanha sua dignidade, arrastando-o para a toca do vazio espiritual.
 
     ***
Muitos têm as chances de crescimento adequadas. Mas a Shradha de seus corações é tão fraca!
 
     ***
 
É por isso que titubeiam tanto no trato com as verdades da alma. Querem mergulhar no oceano de luz, mas seus olhos não brilham. Buscam a espiritualidade com real admiração, mas os "cupins da dúvida" destroem seus estudos.
 
São Paulo, 27 de julho de 1997.
 
“Invocamos Shradha pela manhã.
Invocamos Shradha ao meio dia.
Ao pôr-do-sol também invocamos Shradha.
Oh, Shradha! Cubra-nos de fé!
 
- in “RIG VEDA” -
 
- Notas:
* Shradha: confiança espiritual baseada no discernimento e na intuição.
** "Crocodilo da tristeza" é uma expressão baseada nos ensinamentos de Paramahamsa Ramakrishna.
 



Texto <879><13/09/2008>