431 - UMA HISTÓRIA PROJETIVA

Certa vez, um jovem e brilhante sábio, cognominado Li, saiu de casa seguindo um impulso repentino de se tornar discípulo de um mestre famoso. Recebendo-o, algo surpreso, em seu retiro na montanha, o mestre perguntou: "Meu jovem senhor, o que este humilde homem pode ensinar a um cavalheiro erudito como o senhor?"

Prostrando-se precipitadamente aos pés do mestre, Li exclamou:

"Eu estudei os Quatro Livros e os Cinco Clássicos (do Confucionismo Estatal) do começo ao fim sem descobrir uma única coisa que me leve ao caminho da imortalidade".

430 - QUATRO PALAVRAS E UMA LONGA JORNADA

Levou tempo.
Nunca pensei que precisaria de tanta coragem para dizer o que sentia.

Sempre achei que não precisava fazer nada, não precisava demonstrar. Afinal, ela sabia, deveria saber o que eu sentia.
Mas como era difícil, seguir em sua direção e dizer o quanto ela era importante e que, às vezes, a gente fala um monte de besteira, porque não sabe colocar em palavras as nossas preocupações, o nosso bem-querer.
Como era difícil dizer o quanto eu era seguro por ela ter sempre estado ao meu lado. Pode ter sido a vergonha, quem sabe o medo, mas o fato é que eu nunca tinha lhe dado a devida importância.
E segui, como sempre fiz, recebendo e não retribuindo carinho; sendo cuidado e não me dando conta que ela também precisava ser cuidada.
Nunca perguntei quais eram seus sonhos. Nunca perguntei quem ela era, além da pessoa que sempre cuidara de mim.
Foi numa tarde dessas qualquer, que me revoltei contra a sabedoria popular do "só dar valor quando se perde", e me dei conta o quanto estava longe da pessoa que sempre esteve tão perto de mim, pela impossibilidade de expressar o que se passava no meu coração. Então criei coragem, respirei fundo, enxuguei o suor frio de quem precisa dizer algo importante pela primeira vez e nem sabe como começar, e falei:
- Mãe, eu te amo!
Quatro palavras e uma longa jornada.
Nesse dia perdi a vergonha e ganhei uma amiga.

- Frank -
Londres, 29 de abril de 2003.


Texto <430><20/05/2003>

430 - BRAHMAN, O SOL DE TODOS II

(Inspirado na leitura dos Upanishads)


Todo solo é sagrado, seja da Terra ou do Céu.
Brahman está em tudo!
De onde vem o sopro vital? Como poderia o maravilha da vida nascer do nada?
A vida surgiu da Grande Luz.
Por sua vez, a Luz nasceu do Supremo Amor. Esse amor é Brahman!

430 - LUZ D’ALMA

Caro amigo espiritualista,

A nobreza se reveste de pureza. É o agasalho do grande espiritualista. É quem norteia suas decisões perante a vida.

O que realça a natureza da alma nobre são seus ideais evolutivos.

429 - A OBSESSORA DO SILVA

No começo foi aquele anúncio mínimo no jornal, exatas onze palavras:

"Precisamos projetores, com prática, que desejem faturar dinheiro extra, fone tal". Como andava na maior dureza, liguei para lá, oferecendo-me, mesmo sem botar muita fé.

A pessoa que atendeu já foi logo dizendo:

"Olhe, amigo, não se trata de projetores de cinema, não, tá? Estamos
procurando projetores de outro tipo... Astrais, ok?"

"Bom, é desse tipo mesmo que eu sou", eu disse.

Marcaram uma hora para mim, deram-me o endereço e eu fui.

Lá fui apresentado ao entrevistador, que me explicou: "É o seguinte: estamos desenvolvendo um serviço de desobsessão bastante inovador, no qual o cliente obsediado nos contrata via Internet e nós enviamos agentes astrais para eliminar os encostos. A coisa funciona assim: damos ao senhor o nome de um cliente, o senhor vai lá, espanta o obsediador, e quando o cliente nos informa que está livre do carrego, nós lhe pagamos 100 reais. Interessa?"

Cocei a cabeça e perguntei: "Bom, e se o cara simplesmente não avisar vocês?"

"Bem, aí você volta lá e bota o obsessor de novo..."

"E aí não ganho nada?"

"Claro que não... Você é pago pra tirar obsessores, não pra colocar... certo?"

"É, me parece razoável... Quando eu começo?" E ele respondeu: "Calma... tem um pequeno teste. Diga aí, há quanto tempo o senhor se projeta?"

"Bem, na minha idade, tudo que eu faço já faço há muito tempo..."

"Certo... E tem boa orientação, lá no astral?"

"Acho que sim, outro dia tive a intenção de me projetar para o Japão e cheguei até o bairro da Liberdade, aqui em São Paulo. Como o senhor sabe, o que não falta por lá é japonês..."

"Ok. E qual é sua postura acerca da Cosmoética?" *

"O que é Cosmoética?"

"Ótimo... aprovado. Aqui está a foto do cliente e o endereço. O resto é com você..."

"Espera aí", comecei a dizer, "o endereço é no Rio de Janeiro..."

Mas vendo o olhar desconfiado que meu novo patrão me lançara, apressei-me a emendar:

"Se bem que distâncias não sejam nenhum problema para projetores
experientes..."

À noite, em vez de meditar sobre gravuras devocionais, fiquei mirando a foto digitalizada do Seu Silva, meu cliente. Era feio pra burro... Para ajudar na localização, adormeci cantarolando mentalmente "Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil..."

O que eu via agora, sob a opaca luz astral, era um apartamento de cobertura, de duvidosa mas caríssima decoração. Numa cama redonda, que se refletia no espelho do teto, dormia o Silva, mais feio ainda do que na foto, roncando feito um cão.

Perto dele, uma mulher que já fora bela, evidentemente desencarnada agora, olhava o relógio de pulso, impaciente para entrar em ação... Pronto... Eu havia conseguido chegar e já achara a obsessora... A grana estava no papo... Lembrando das técnicas aprendidas numa lista virtual de projeção astral, estendi as mãos e comecei a emanar uma luz rosa para cima da mulher, enquanto repetia "Xô, sai desse corpo que não te pertence, volta pro teu lugar..."

A moça nada. Mandei luz azul, verde, depois laranja... Ela nem tchuns. Uma certa hora ela voltou-se pra mim e disse:

"Ô amigo, será que o senhor não sabe que esse negócio de jogar luz funciona é com assediador? Assediadores são vampiros energéticos. Eu sou uma obsessora... O senhor não sabe a diferença? Não lê sobre esses assuntos?"

"Bem, confesso que eu prefiro mais é escrever... Mas quer dizer que não adianta, é? E a senhorita com certeza não vai me dizer o que é que funciona com obsessores, né?"

"Meu amigo, nada funciona contra obsessores, pois eles são parte integrante do próprio obsediado. Somos dívidas cármicas que os outros esqueceram de pagar. Aliás, o Silva é o maior caloteiro que eu conheço".

Não gostei muito de ouvir aquilo, mas ela continuou, com tristeza nos olhos: "Ah, se o senhor soubesse todo o mal que ele me fez... Não estou aqui por que quero, são coisas cármicas que têm que se cumprir"

E começou a desfiar sua história, de como o Silva havia prejudicado tanto a vida dela, explorando-a e expondo-a a todo tipo de agruras e acabando por deixá-la à morte, num hospital para indigentes.

A estas alturas eu, que normalmente sou um cara durão, já estava à beira das paralágrimas...

"Oh, não fique assim", disse ela. "De qualquer forma, esta é minha última noite como obsessora, amanhã vou ser substituída por um obsessor encarnado - um fiscal da receita federal..."

Penalizado, só queria fazer alguma coisa para ajudá-la, e assim eu lhe disse:

"Olha, não posso fazer muito por você, mas posso poupá-la de sua tarefa de hoje... Pode ir, deixe que eu mesmo cuido do Silva, esta noite..."

Surpresa, ela hesitou por um momento. Depois sorriu, agradecida, e começou a se desvanecer, até sumir. Então ficamos lá, o Silva ainda roncando, e eu.

Bom, a viagem não dera em nada, a grana da desobsessão e o meu novo emprego já tinham ido pro brejo e, para piorar, eu estava muito zangado com o Silva. Só havia uma coisa a fazer, para salvar a noite. Sem pressa, comecei a materializar um longo tridente.


- Bene -
São Paulo, 05 de maio de 2003.

* Cosmoética: Código de Ética Cósmica, Paraética, Ética espiritual, Ética Superior.

Texto <429><16/05/2003>